VII
O Antonio Fogueira saíu, ao escurecer, de Vianna, com idéa de chegar, na manhã seguinte, á sua freguezia, fazendo, assim, todo o caminho de noite. Não havia luar e as estrellas, quasi tão vivas como nas limpidas noites de inverno, diffundiam na amplidão luz sufficiente para, a pequena distancia, se poder apreciar o vulto das pessoas, a grandeza das arvores e dos penedos proximos. Quando elle saíu de Vianna, com muita gente conhecida, dispediu-se da Marianna Ripa até á proxima feira dos nove. Pelo caminho, os seus companheiros, foram dirivando para outros destinos e, quando era pela volta da meia noite, o Fogueira caminhava só, destacando-se, no silencio ambiente, como uma côr viva se destaca n’um fundo escuro, o saliente resfolgar da sua egua, que trotava n’um passo moderado e cadente, batendo com as ferraduras nas pedras avulsas do caminho. A estrada que seguia era estreita, orlada de arvores copadas, o que augmentava a escuridão... O Fogueira, apesar de não ser medroso, sentia, em volta de si, um certo vasio que lhe dava uma sensação de desamparo... de abandono!... Inconscientemente principiou a pensar n’um mau encontro, a lembrar-se que lhe podiam vir ao caminho alguns ladrões, se por acaso soubessem que o seu cinto ía tão bem recheado de soberanos! Quando se surprehendeu dominado por estas idéas extravagantes, sorriu incredulamente... Bem sabia não haver por ali ladrões, e que sómente, uma ou outra vez, se roubava uma poçada de agua, para valer a algum campo de milho, que se mirrava de secura. Mas dado mesmo o caso que lhe apparecesse um ou dois ladrões!? Não era elle um dos melhores jogadores de pau das feiras minhotas?! O seu lodam não tinha uma choupa de romper um peito?! A sua egua não era bastante impetuosa, para abrir caminho por entre um regimento de soldados, e bastante fugideira, para não ser pilhada pelo melhor cavallo a toda-a-brida?!... Porém, como lhe veio esta idéa esquisita de se lembrar de ladrões?! Como diabo lhe deu a caturrice para ali?! Não sabia, mas a verdade é que lhe desagradou o encontrar-se a pensar em taes amigos, quando era certo, que tinha o cinto atulhado de dinheiro... No momento em que elle se sorria destas asneiras, chegava a um pequeno largo, onde havia uns carvalhos antigos, cuja ramagem copada lhe deu facilmente uma impressão amedrontadora, como a de uma igreja, ou de um cemiterio que, n’uma estrada rural, se encontra desprevenidamente! O silencio aqui era simplesmente interrompido pelo som metallico de uma pequena fonte, que pingava junto de um muro. O Fogueira sentiu-se n’este momento mais isolado, e, talvez, em virtude da impressão desagradavel que este sentimento de desamparo lhe causou, attendeu com mais intelligencia a tudo que o cercava. Um tremor incaracteristico, mas energico, irradiou-lhe em todo o corpo; porque dois homens, dando largas passadas de tragedia, de paus argolados levantados ao ar, se lhe opposeram com arrogancia, dizendo com voz soturna:
—Faça lá alto, ó seu amigo!
A egua susteve-se logo, desconfiada, com um olhar inquieto, a cabeça levantada, as orelhas espertas! O Fogueira estremeceu involuntariamente, um formigueiro rabiou-lhe ao longo da espinha, ficando n’uma especie de spasmo, depois de ouvir aquella voz rouca, avinhada, uma voz de timbre seu conhecido, mas que, n’este momento, não podia dizer de quem era... Toda esta scena rapida e inesperada, deu-lhe uma idéa pavorosa de cousa sinistra, da intervenção do demonio nos successos da sua vida, de acontecimento só explicavel em historias de bruxas!... Porém, recuperando a serenidade, reconheceu que eram realmente dois homens mascarados, que se lhe oppunham no caminho e que deveria por força ser, para o roubarem... Seguindo o proprio instincto, tirou o seu pau ferrado de entre a perna e o albardão, levantou-o para elles com arrogancia e dizendo «qual alto, nem meio alto!» esporeou energicamente a egua, para romper com velocidade por entre os dois mascarados. O animal, que era fino e sensivel, deu um corcovo, indo esbarrar-se contra uma corda que estava intensionalmente atravessada no caminho e, o Fogueira, ficou desmontado; mas com tanta felicidade que, quando os aggressores íam a caír sobre elle, encontraram-n’o de pé, fazendo-lhes face, com o páu em guarda, emquanto que, a distancia, se ouviam as ferraduras da sua egua batendo nas lages da calçada.
Este momento de silencio foi tenebroso! Havia dois homens contra um, na escuridade indicisa de um caminho orlado de arvores, que se definiam no ar com os seus enfolhamentos volumosos e espessos! O Fogueira esperava um ataque simultaneo da parte dos salteadores, e já calculava defender-se, de costas contra o muro, sustentando-se assim até poder bimbar o primeiro, para depois se encontrar com o segundo que accommetteria com força. Mas um dos mascarados, baixando o páu com desdem, disse n’uma voz trocista de compaixão, para lhe mostrar que o tinha comprehendido:
—Home, não te faças fino, que te enganas. Deita ahi a marmelada que levas no cinto e vae-te c’os demonios, se não póde-te saír a cousa torta!
Esta intimação ironica e despresadora offendeu, mais do que tudo, o Fogueira, insufflando-lhe uma energia raivosa contra os dois aggressores. Não o conheceriam elles?! Não saberiam que era o melhor jogador do pau das feiras minhotas?!—disse comsigo este sanguineo estouvado! Pois estavam em momento de o experimentarem!—pensou n’um silencio rancoroso e indomavel. E logo depois, n’um impeto leonino e sem tatica, cresceu aggressivamente para ambos, tomado de um frenesi tão diabolico, que os fez recuar alguns passos n’este primeiro ataque. O Rio Tinto disse-lhe com uma voz já menos disfarçada, aparando-lhe as pauladas:
—Ah! queres á valentona?!... Vamos então lá a ver!...
Houve um instante de hesitação, um momento instinctivo de pausa, em que de parte a parte se pensou rapidamente em accommetter com a maior energia. O Fogueira era bastante conhecido, como jogador temivel. O Rio Tinto e o Fanfarra sabiam-n’o melhor do que ninguem; porque muitas vezes se tinham encontrado emparceirados em desordens e, talvez n’este momento, se lembrassem que, um d’elles, devia á presteza e generosidade d’este valente rapaz, não ter ficado morto no S. Sebastião de Villa Nova!... Porém, apesar d’isto, no momento actual, elles eram dois contra um! A enorme sêde de vingança, e a natural maldade e valentia incontestada dos dois salteadores, davam-lhes reconhecidas vantagens. O Fogueira, ainda que fóra de si, já tinha conhecido pela guarda dos adversarios que elles sabiam do negocio:—reconheceu que eram jogadores. Mas o seu natural impetuoso e imprevidente levou-o a saír da defeza, com o fim de os atacar, e com a idéa de fazer a um d’elles, a sua finta predilecta á bôcado estomago; empregando, ainda assim, muito olho para não perder a protecção do muro, que lhe guardava as costas. Na soturnidade da noite, profunda e cava, por entre os espessos troncos de carvalhos folhosos, no meio do silencio imponente das montanhas visinhas que se levantavam na amplidão, ouviam-se os estalidos seccos e breves dos paus, batendo uns nos outros, por entre as respirações de cançaço cortadas de palavras injuriosas e cheias do rancor dos combatentes! No escuro, a que elles já tinham habituado os olhos, os seus corpos furtavam-se habilmente aos golpes, saltando de lado para lado, sempre n’uma incerteza de posição! O Fogueira, como era só, precisava empregar maior esforço e tal raiva que, no fim de cinco minutos, fez saltar o pau do Rio Tinto, para lhe atirar a pontuada ao estomago! Este porém, como lhe conhecia bem o jogo, deu um largo salto de recuo e, em vez de ir buscar outra vez a sua arma, metteu rapidamente a mão ao bolso interior da vestia, tirando a sua comprida navalha que abriu de prompto e disse na voz natural:
—Agora ha de ser com esta. Ataca com força rapaz!—gritou ao companheiro.