Principiou um d’esses momentos terrivelmente sinistros, em que entre dois homens se estabelece esta negra idéa—de se matarem um ao outro! O Fogueira conheceu immediatamente o perigo, quando viu faiscar a lamina da navalha, que mesmo á luz tibia das estrellas brilhára aos seus olhos, como um relampago! N’esta lucta obscura, que se passava no silencio de uma noite de primavera e na tranquillidade de um caminho rural, havia muita ferocidade condensada! O Antonio Fogueira tinha, até ali, sustentado os ataques dos adversarios; mas, agora, para se furtar á navalha de um assassino, só o poderia conseguir inutilisando o Fanfarra, que o ensarilhava de cada vez mais, fazendo-lhe um jogo de mil demonios! Por isso, com a ligeireza de um cabrito montez, saltava para a direita, para a esquerda, para a frente, para traz... evitando os dois inimigos que o procuravam com pertinacia... com furia! O Rio Tinto praguejava, ameaçava-o com voz rouca... quasi natural... O Fogueira tel-o-ía conhecido em outras circumstancias; mas, em momento tão apertado, nem reflexão tinha para isso... As forças eram desiguaes... o filho da Engracia enfraquecia-se visivelmente, e a elle, que era corajoso, veio-lhe a idéa de um soccorro providencial... Sentia-se já extenuado e aggredido de cada vez com mais tenecidade, com mais rancor, com maior impeto! Aquelle que o procurava por todos os modos, para o anavalhar, pronunciou com voz clara, já sem pretensões de disfarce:

—Agora Fanfarra, deixa-me c’o elle!...

E logo em seguida, o Fogueira, sentiu-se abraçado pelo seu inimigo, a quem desmascarou no instante em que a comprida navalha lhe entrava no coração, rasgando-lh’o com tal força, que só teve tempo de dizer n’um suspiro final:

—Ah! ladrão de Rio Tinto, que me matastes!

Foi este o ultimo grito de angustia e as ultimas palavras que proferiu!... O seu corpo deixou-se caír no chão, desfallecido, com os braços pendentes e o sangue a golfar-lhe pela ferida e pela bôca! Ainda teve alguns movimentos convulsivos, acompanhados de um rouco respirar stertoroso, com borbulhões de espuma sanguinea pelo nariz! A sua energia ainda manifestou um instante de louca rehabilitação, pertendendo, aquelle corpo moribundo, levantar-se sobre os joelhos! Mas a final caíu brutamente, ficando exanime, insensivel, de bruços sobre a terra!...

O Rio Tinto e o Fanfarra conservaram-se, durante um longo minuto, a olhar para o cadaver, silenciosos, estupidos, n’uma impotencia inexplicavel, quasi sem poderem fugir! Sentiam-se agora mais covardes, mais irresolutos, depois de consummado o crime! Não tendo uma precisa comprehensão das circumstancias, esperavam, um tanto passivamente, qualquer castigo que viria do alto, de uma implacavel região de justiça, para os punir!... Alguem que, por casualidade, os tivesse visto, poderia aproximar-se sem que elles se escondessem; pois que, durante este minuto sinistro, conservavam-se sisudos, calados, a olhar um para o outro, com os braços pendentes!... Mas, logo depois, o Rio Tinto, que era mais preverso e malvado, recuperando com certa promptidão a sua podre consciencia, disse, em voz insultante, para o cadaver:

—Ora ahi tens!... É assim que se ensinam os pimpões!...

E permanecendo algum tempo com o ouvido á escuta, para que alguem se não aproximasse inesperadamente, observou em seguida ao Fanfarra que, dominado por um terror supersticioso, escutava o som metallico da agua da fonte:

—Não tenhas medo... Não é ninguem... É ali a pingar...

Porém, como o Fanfarra, ainda se conservava n’esta insensibilidade estupida e incomprehensivel, o Rio Tinto dispertou-o dizendo-lhe, com um acêno imperativo de cabeça: