O Rio Tinto concluiu com uma intonação trocista:
—Aposto que tens pena d’elle!... Ou é medo?!... Não tenhas medo; nem elle, nem os que podem vir te prendem. Se algum pimpão ahi apparecesse agora, fazia-se-lhe o mesmo e eram dois que ficavam estendidos.
Depois afastaram-se do cadaver e do caminho que tinham trazido de Vianna, por atalhos seus conhecidos. D’ali a poucos minutos, transpunham o cabeço sobranceiro á estrada. O Rio Tinto concluiu com serenidade:
—Agora é que é bom dar á perna, que ella vae-se mostrando...
Referiam-se á manhã que rompia, com uma claridade roxa. Era o alvorocer de um formoso dia de sol. As cumiadas dos montes circumvisinhos ainda se esfumavam indicisamente no azul; porém, o tremulusir das estrellas que fôra, durante a noite, vivo e inconstante, como o dos brilhantes nos bailes da opulencia mundana, principiava a extinguir-se. O ar sadio e oxigenado dos campos, dava ao corpo dos madrugadores a sensação macia de uma ligeira humidade refrigerante. Dos pinheiraes e das mattas de carvalhos, já saíam os gaios ralhadores, com o seu vôo largo, annunciando, por cima das penedias, o dia que chegava. Os braços enfolhados das arvores nascidas nas eminencias, recortavam-se no céu, tenuemente anillado, manchando-lhe a pureza. A modo que o dia se ía illuminando melhor, as arvores e as massas de penedos destacavam-se, com mais precisão. Da côr roxa primitiva, o céu, foi insensivelmente passando para a côr de rosa, depois para o azul plumbeo, por fim colorindo-se todo por igual, quando as estrellas já se não percebiam, adquiriu o verdadeiro tom de azul ferrete, uma côr humida e energica, propria das manhãs de primavera no clima do Minho. O nevoeiro tenue, como um gaze lançado sobre os montes e os campos, foi se pouco a pouco condensando no fundo do valle. A vida laboriosa dos trabalhadores ía manifestar-se nos caminhos e nas encostas. Seria um dia alegre como todos os dias,—os milhos continuariam a crescer, e as poucas cearas de centeio pintar-se-iam com o amarello da ganga... Porém, n’este pequeno largo plantado de velhos carvalhos annosos e onde uma pobre veia de agua pingava continuadamente, estava disposta uma surpreza desagradavel, para o primeiro madrugador da aldeia. Era o cadaver de um rapaz de vinte e tantos annos, assassinado com uma facada, que lhe entrára no coração! O seu corpo estava de bruços, no supremo abandono da morte! O sangue saído da ferida, molhava a terra e manchava-lhe a cara. E, a vivificante luz da manhã, o orvalho que refrigéra, as côres da paizagem que enebriam pela complexidade de tons... essa força omnipotente que vem da natureza, pairava sobre o morto, com um scepticismo ironico e dominador!...