Mas o Tone da Rosaria não gostou d’aquelle studo: o mestre era brusco, tinha uma voz grossa, que repellia, uma cara rude, com muita barba. Na mesma tarde em que entrou para a escola, viu, com um semblante cheio de susto, que, o seu amigo, o Zé do sachristão, a unica veneração que o Tone tinha n’este mundo, foi severamente castigado com dois murros, levantando-se do chão a deitar sangue pelo nariz, só por lhe ter caido um borrão na escripta! O Zé chorou soluçando reprimidamente, desculpando-se, e ficou muito tempo no seu logar, a olhar para o manual, com os seus olhos vermelhos do chôro, fingindo uma penetração que não tinha. Por um movimento espontaneo e sympathico, o Tone foi ter com o seu amigo, para o consolar! Porém, o mestre, disse-lhe com uma voz estrondosa, que se fosse sentar... Elle obedeceu, encolhido de medo, como um cão escorraçado, e principiou tambem a chorar, soluçando...

Quando chegou a casa disse:

—Ora eu não quero mais aquelle studo...

—Porque?—indagou sua mãe.

—O mestre bate nos rapazes. O Zé da igreja verteu sangue pelo nariz e chorou muito...

—Mas tu has de saber a lição e o senhor mestre ha de ser muito teu amigo...

—Não quero ir mais... Elle bate-me e faz-me deitar sangue pelo nariz...

E não voltou mais. Quiz antes os seus devertimentos:—ir para o campo com os filhos dos lavradores que andavam com o gado e não estavam para aprender a ler, jogar o talo com elles, abrir covas á mão para enterrar pedras que fingissem de mortos, comprar aos outros gaitas, com o pão que levava de casa... O Tone andava quasi sempre acompanhado do seu cabrito, que elle mandava com ama voz exigente e imperiosa... Os seus amigos, para o desgostarem, desmereciam-lhe o animal. Porém, n’um dia, em que esse cabrito appareceu puxando um carro novo, todos os invejosos se submetteram. O Zé do sachristão que lh’o viu e lhe cubiçou, carro e cabrito, disse-lhe:

—Das-m’o, Tone?