As suas amigas, para a socegarem, disseram-lhe com os olhos enxutos «que não se affligisse mais, que aquillo foi vontade do Senhor que tudo manda». E acrescentavam com fé e confiança na Infinita Misericordia:

—Olha que elle ha de estar em bom logar!...

—Deus vos ouça, Deus vos ouça... Ao menos que Nossa Senhora o tenha no reino dos céus!...—repetia muitas vezes Isabel.

As outras certificavam-lhe:

—Ha de ter, ha de, rapariga. Ao que elle penou n’este mundo...

—Não que eu lhe desse má vida! Como vós sabeis trazia-o sempre nas palminhas!...

Lindoria concluiu, sorvendo uma pitada:

—Aquem tu o vens dizer, mulher! Era um Santo Antoninho onde te porei.

Depois de conversarem algum tempo familiarmente, foram á cama ver o defunto! Estava escondido por um lençol; mas ellas descobriram-n’o com certa naturalidade, talvez mesmo com irreverencia... Viram-n’o bem, miraram-n’o por todos os lados: o José Chibante, já composto, de costas sobre a cama, tinha os punhos atados sobre o peito, e um lenço amarrando-lhe as maxillas, para se conservarem n’uma posição decente. Essa alvura do panno que lhe enquadrava o rosto augmentava-lhe a lividez; as palpebras, cuidadosamente cerradas e presas por um pingo de cêra, accentuavam o ar sereno e grave do cadaver, que todas viam n’uma posição reflectida, com as pernas estendidas e os pés levantados no fundo da cama.

—Eu não sei como pódes fazer isto... Eu cá se me morresse o home é que o não vestia—disse uma para a Isabel.