Com esta auctoridade e saber, sem mesmo consultar a viuva, Lindoria combinou com as outras mulheres, para arranjarem alguma cousa que Isabel podesse comer—alguma cousa que chegasse para ellas tambem, porque se sentiam com bastante fraqueira. Como era no tempo da matança dos porcos, uma, que morava mais visinha da viuva, foi-lhe arranjar uns rojões e trouxe-os, acompanhados de uma boa infuza de vinho... N’uma voz convidativa e discreta, pronunciou estas bôas palavras, logo ao entrar da porta:
—Vamos a elles, emquanto estão quentes e não vem por ahi alguem á agua benta...
—Tens rasão, tens—confirmou a prudente Lindoria, com aspecto guloso.
Isabel, nos primeiros momentos, absteve-se, dizendo com a mão apertada na garganta:
—Esta (a morte do Chibante) não me passa d’aqui. Agora é que fico para toda a vida... O que eu tenho passado em sete annos!...
Era o tempo que lhe tinham durado os tres maridos.
Uma das mulheres, prudentes e sensatas, que a cercavam, disse-lhe:
—É isso verdade rapariga. Rasão tens tu. Mas se é vontade de Deus, que lhe has de fazer?!...—interrogou de cara alta. Sem comer é que não somos nada n’este mundo, e, como te disse aquella (referia-se a Lindoria), até offendes a Deus com essas palavras desagradecidas!...
A beata, confirmou mais uma vez, esta sua opinião, repetindo:
—Ah! isso offendes e muito! Eu que t’o digo é porque o sei. Mas—rematou—vamos aos rojões, antes que arrefeçam. Frios não prestam.