O ENTERRO DE UM CÃO
A MACEDO PAPANÇA
O ENTERRO DE UM CÃO
I
O velho Coruja, o coveiro, o bom amigo dos mortos, tinha pelo seu pequeno cão, uma affeição pura e desinteressada.
O Coisa acompanhava-o em toda a parte, com uma fidelidade insistente: nos enterros apparecia cansado, reflexivo e de cabeça baixa; no palheiro, onde ambos dormiam, deitava-se junto d’elle, corpo a corpo, como um companheiro familiar; nas diversas cosinhas das casas ricas da visinhança, onde o coveiro apparecia ao meio dia, sempre se mostrou submisso, quieto, esperando pacientemente que lhe dessem a sua brôa e as rapaduras do pote do caldo de farinha.
O Coruja olhava para elle com ternura, dava-lhe do seu comer, interrogava-o com naturalidade, affagava-o dizendo-lhe palavras boas, repassadas de carinho e de benevolencia...; porque partia da hypothese sensata, de ser comprehendido. O Coisa, pequeno, magro, de pello faminto, com as barbas de guloso sempre sujas, escutava-o attenciosamente, sem pestanejar e deitando-lhe a cabeça nos quartos, ficava como adormecido muito tempo.