O Coveiro comprehendia estas finas delicadezas do seu companheiro... Por isso fallava-lhe com polidez, com cuidado, escolhendo as palavras, estudando um timbre de voz meigo e delicado. Que dois corações unisonos e isochronos! As unicas desavenças que se tinham dado entre elles, eram por causa das creanças pobres... O cão perseguia-as insistentemente, se as encontrava agglomeradas, a pedir esmola, junto dos portaes ricos! N’este ponto era formalmente desobediente á palavra austera de seu amo!... O Coruja que, quando tinha vontade d’isso, sabia ser iracundo, figurava então uma voz aspera, severa e reprehensiva, ameaçando-o arrogantemente:
—Pedaço de bregeiro! Tenho-te dito muitas vezes que me deixes os rapazes. Fizeram-te algum mal? Diz lá: fizeram? Não entendes isto, maroto?!...
E se depois o cão se lhe ía enroscar aos pés, humilde e submisso, concluia com energia:
—... Pois devias entender. Elles são como nós ambos e como os outros desgraçados—andam na sua vida... Se são pobres, quem lhes ha de dar o pão, se não forem os ricos?! Vel-os acolá?—indicava incautamente os rapasitos. Andam ás esmolas, como tu e como eu!...
O Coisa olhava fixamente para o seu amigo, escutando-o sem pestanejar, e como vira que as ultimas palavras haviam sido acompanhadas de um gesto em que eram apontados os pequenos pedintes, que, amedrontados, tinham fugido para longe, interpetrando-as mal, arremettia de novo contra as creanças, perseguindo-as com mais raiva pelos caminhos.
O Coveiro mostrava-se estupido e confundido... Não comprehendia!... ficava scismando, para ver se encontrava o motivo que o animal teria, para odiar com tão afincado accinte, as creanças pobres, que via encostadas aos portaes ricos!... Não o podia perceber, elle que ignorava inteiramente a biographia do Coisa...
Encontrára-o n’uma tarde de chuva, perto de um ribeiro, onde, no dia seguinte, appareceu afogado um velho pedinte, de longa barba esqualida. O pobre animal tiritava de frio, recolhido humildemente dentro do tronco carcomido de uma cerdeira desfolhada. O Coruja, vendo-o assim, teve um ar compacido e lastimou-o com um sorriso triste. Lembrou-se que levava n’um bolso restos de pão do jantar, e, com um ar de bondade, atirou-lhe um pedaço, dizendo:
—Talvez tenhas fome... Pega lá, come.
O cão, saindo do esconderijo, abocou com rapidez e mastigou sofregamente, auxiliando a deglutição com movimentos rapidos e impulsivos de cabeça. O coveiro observando este facto, disse sorrindo:
—Home... tinhas larica. Toma lá mais um naco!...