E, tirando mais brôa do bolso das calças, deu-lh’a. O animal, enguliu com rapidez o pão e aproximou-se do coveiro com obediencia—arqueava a espinha dorsal arrastando a barriga na terra, tinha movimentos lateraes e cadenciados de cauda, levantava a cabeça para lhe cheirar a mão benefica e ouviram-se-lhe latidos de agradecimento. O Coruja, olhou reflexivo para elle e, cofiando-lhe a cabeça, observou com sorriso:
—Diabo! sempre és muito feio, ladrão!
Depois atirou para o hombro a enxada de abrir as covas e foi pelo caminho adiante... Ia para um atterro.
O cão ficou quieto, humilde, a olhar para o seu bemfeitor. O coveiro, olhando para traz, viu-o n’esta posição quasi supplicante e gritou-lhe de longe:
—Tó Coisa.
O animal veio para elle depressa, contente, feliz, dando pulos de alegria, movendo festivamente a cauda, lambendo os pés do Coruja, que o affagava. E para mostrar logo, áquelle seu amigo fortuito, um bom fundo de cão agradecido, arrastava o ventre pela terra, gania amoravelmente, roçava-se-lhe pelas pernas, e por fim, conservou-se alguns momentos n’um aspecto captivante, deitado no chão, olhando para o coveiro, com a cabeça firme, a mostrar os dentes e a piscar os olhos...
Foi assim que se tomaram por companheiros inseparaveis!... O coveiro não indagou quem era o Coisa, mas eu que o sei, posso dizer que era o cão do pedinte, que no dia seguinte appareceu morto na levada do ribeiro! Tinha sido amestrado para ladrar ás creanças, para escorraçar os pequenos, magros e sujos, que podesse encontrar pedindo esmola junto dos portaes ricos. Os perseguidos fugiam assustados e chorosos, gritando muito, apertando na mão os saquinhos vasios... e ficavam de longe, a ver quando o pobre da barba esqualida saíria de ali com o maldito cão, para elles voltarem a implorar a esmola, com as suas vozes finas e plangentes.
Porém, o velho pedinte era experimentado e sceptico. Se alguem, casualmente, observava a perseguição injusta que o animal fazia aos rapazitos, elle, que fingia de aleijado, chamava-o com modos de homem irritado, ralhava-lhe muito, chegava mesmo a bater-lhe. Com este procedimento conseguia, muitas vezes, captar a benevolencia de quem o observava e obtinha alguma esmola que agradecia, dizendo:
—... Pelas bemditas almas... Por mais que me mate, não posso ensinar este ladrão. Um dia como-lhe os figados. Apesar do amor que lhe tenho, sou home p’ra isso!
E, com o fim de se mostrar digno de admiração, erguia para o companheiro o pau da justiça, tremente de cóleras! O bemfeitor, compadecido, entrevinha caridosamente a favor do animal, aconselhando: