—Deixa lá. São brutos, não sabem o que fazem. Se elles não têem alma!...
—É tamem do que me tenho lembrado, meu rico pae da caridade! Se elle tivesse uma alma, eu era capaz de lh’a metter n’um inferno, só pelo que elle é de mau para as creancinhas... coitadas!
Mas o animal não era responsavel. Tendo sido educado, por seu amo, no proposito de perseguir os concorrentes ás esmolas, obedecia-lhe. Mesmo quando o velho pedinte lhe ralhava, apontando as creanças que fugiam espavoridas e elle continuava a preseguil-as, é porque sabia ser este um signal para as escorraçar com mais impeto! Tinham-lhe ensinado que, todas as admoestações lhe impunham dever de ladrar com maior energia e vivacidade, por isso assim procedia!...
O pobre da barba, depois de obtida a esmola, premio da reprehensão infligida ao maleficente, dizia vagamente, de modo a ser ouvido pelo bemfeitor que se distanciava:
—Diabo do cão é tolo! Não sei que mal lhe fizeram os rapazinhos!...
E voltando-se para elle, outra vez, com o pau no ar, concluia:
—És mesmo ruim, como as cobras!
Mas, logo que ficavam sós, cofiava amoravelmente a barriga do rafeiro, chamando-lhe seu rico cachorrinho, ganindo como elle para o reconciliar comsigo, e dando-lhe fartamente brôa da sacola, com o fim de o excitar ao crime. Incomprehensivel preversidade!...
Eis aqui estão os motivos, em virtude dos quaes, o coveiro, nunca poderia fazer comprehender ao Coisa, que a sua benevolencia era sincera e não mentirosa, como a do velho pedinte, que primeiro o educára. O modo compassivo como o Coruja entendia deverem ser olhadas as creanças pobres, que aos sabbados encontrava junto dos portaes ricos, o cão não o podia comprehender facilmente e até o interpretava ao inverso, princialmente quando lhe apontavam os rapazitos que se conservavam agrupados e cheios de susto a olharem de longe.
Mas, apesar d’esta divergencia, viveram muitos annos em concordante familiaridade, dormindo promiscuamente nos mesmos palheiros e comendo da mesma ração. Como o Coruja era um bebedo declarado, entendeu que devia habituar o Coisa a gostar de vinho, exactamente como elle, e dava-lh’o. O cão principiou pelo provar, com evidente repugnancia. Nos dias de fome, que o seu antigo amo lhe fizera passar, quando as esmolas não corriam para o sacco, tomára habitos de sobriedade. Vinho! Tal guloseima nunca provára! O pedinte de barba esqualida era extremamente egoista... emborrachava-se só. Mas, passado algum tempo, depois de ter sido preciso abrirem-lhe a bôca á força para lhe emburcar o liquido nas guelas, o Coisa gostou, e por fim já escorripichava a tijella, por onde o coveiro bebia a meia canada habitual... Tão fino bebado se mostrou depois, que andava sempre lambendo, com cuidado e esmero, até as deixar enxutas, não só a tigella do amo, mas todas as cuncas da sopa de bestas que encontrava ás portas das estalagens e tendas minhotas. Então dizia-lhe o seu amigo, rindo abertamente, com effusão, piscando os olhos, já muito torto: