—Anda grandissimo borrachão, que me pareces um padre!

Esta phrase usual, sincera e inoffensiva, que tantas vezes dissera impune, preferiu-a incautamente, uma vez, diante de um ecclesiastico que, julgando-se offendido, o reprehendeu severamente, levantando a bengala com uma intenção aggressiva! O coveiro que, pelo habito de viver entre batinas, não as respeitava, e, considerando mesmo que os padres eram homens como os outros e igualmente peccadores, lembrando-se até de que elle já tinha enterrado um bom par d’elles, respondeu com desdem e indignado:

—Olhe, talvez o seu coração não seja tão bô como o d’elle!...

O padre ficou auctoritario e colerico, e o coveiro retirou-se cheio de justiça, por ter pugnado pelo seu camarada.

Ás vezes, nos dias de muita chuva, o Coruja não podia saír do palheiro onde dormia, por causa das malditas dôres que lhe vinham á perna doente. O Coisa, n’essas occasiões, parecendo-lhe que devia prover as necessidades communs, saía a procurar comida. N’esses dias não respeitava nenhuma casa, fosse ella de quem fosse! Previdente e sagaz, obedecendo á sua primeira educação na vida mendicante, ía por ahi fóra... Porta que encontrasse aberta e d’onde saísse bom cheiro, entrava com ousadia e abocava desceremoniosamente qualquer posta de bacalhau ou qualquer salpicão que encontrasse. Mas, em vez de comer o producto da ladroagem, como faria qualquer cão vulgar e sem sentimentos, vinha depositar a comida intacta nas mãos do seu companheiro, para elle a repartir. O coveiro, no proposito de se dar seriedade, reprehendia-o com brandura, sorrindo com os seus olhos vesgos:

—Ah! grande ladrão! Home, isso não se faz!... Ir roubar o que não é da gente!... Muito mal feito, seu patife!... Come tu, anda, que eu não tenho grande fome.

No entanto, para não ser descortez e mal agradecido, acceitava o alimento que repartia com rectidão e igualdade, dando muitas vezes ao Coisa, qualquer bocado, que julgava mais appetitoso.