II

Um dia, porém, o Coisa appareceu morto na beira de um caminho, no velho sulco cavado pelas rodas dos carros, que ali tinham passado durante muitos annos! Era em janeiro, o coração do inverno, no alto Minho. Fazia um frio de lobo, mas a noite era de uma limpidez phantastica. Um luar claro dava aos objectos um destaque energico. O ruido das montanhas espalhava-se sussurrante nas profundezas dos valles cobertos de uma herva miseravel, mirrada pelo frio intenso e prolongado, pelas geadas successivas que os soes, quasi primaveraes, não conseguiam descoalhar. Os montes altos, cobertos de neve, levantavam as suas enormes carcundas de gigantes, ha seculos ali adormecidos!... O dia amanhecera com um sol rutilante, que produzia vivos reflexos nos brincos de gelo, pendentes dos braços nús das arvores, dos beiraes dos telhados, e das vertentes das fontes. Os pequenos passaros, saltando nos galhos das oliveiras, pareciam mais volumosos, porque tinham as pennas irriçadas. Os tordos, com os pios ingenuos e os melros com os assobios agudos e petulantes, denunciavam-se aos caçadores, que os perseguiam, aproximando-se encobertos com os troncos das arvores, com os muros e com os penedos, para fazerem certeiramente a pontaria.

A paisagem animára-se com o levantar do sol. Principiava a vida dos campos—os bois íam soltos para as reles pastagens, ou, cangados, puchavam aos toscos carros de duas rodas; as eguas lanzudas e famelicas, avistando-se de encosta para encosta, relinchavam; os rapazes, as mulheres e os homens trabalhavam nas hortas, na apanha de lenha para o lume e nas podas, cantando sempre, para não sentirem o frio. Passavam nos caminhos alguns pedintes de capas remendadas e de sacolas a tiracolo, cheias de brôa. Tinham o bom ar, alegre e folgasão, dos felizes despreoccupados, para quem, o dia de amanhã, será bom como o dia de hoje. Iam conversando animadamente em accidentes da sua vida vagabunda e caminhavam n’um passo largo, assobiando, cantarolando, batendo nos cães vadios com os páus a que se costumavam encostar quando pediam esmola. Foram elles os primeiros que encontraram o Coisa morto na estrada, tristemente abandonado n’um sulco de carro, como um cão desprezivel que não tivesse inspirado um affecto na vida! Junto d’este morto anonymo, os pedintes alegres, fizeram uma paragem, dizendo um d’elles, com ar trocista e de chacota:

—Olhem este asno onde se foi deitar!...

Acrescentando outro:

—É que tinha calor e não quiz dormir na palha!

Um terceiro, ainda observou, com um compadecimento fingido:

—Coitado!... Já não come mais brôa!