E por ultimo, um mocetão robusto, desertor do tres de Vianna, para dispertar a hilaridade na companhia, levantou pelo rabo o magro corpo do Coisa, e pronunciou, conservando-o suspenso:
—Eh! diabo! Está teso como minha avó torta!...
Riram-se unisonamente com as bôcas escancaradas, d’este dito excentrico, continuando depois o caminhar divertido.
Porém, o cão não estava ali esquecido, como se poderia suppor:—o Coruja tinha-o procurado durante a noite. Andou n’isso muitas horas, apprehensivo e triste, repassado de maus prenuncios. Chamou-o alto nas encruzilhadas, assobiou por elle de cima dos muros dos caminhos, teve momentos silenciosos de uma tristeza indefinida!... E, como via o Coisa não lhe apparecer, disse com a testa avincada e com uma expressão de quem suspeitava um crime:
—Que diabo! por ahi algum maroto...
Suspendeu bruscamente a phrase, concluindo-a depois, mostrando um punho cerrado:
—Pois se sei quem foi que o matou, abro-lhe a cabeça com o olho da enxada! Ainda que trezentos diabos me levem, p’ras profundas dos infernos!
Dirigiu-se para o seu palheiro, tiritando de frio, dando suspiros e com lagrimas nos olhos. N’essa triste noite estava só. Não sentia o seu companheiro de tantos annos, introduzir-se com o fochinho entre a palha, para adormecer mais quente. Apesar dos latidos vagabundos dos outros cães da visinhança, o Coisa não se levantava esperto para ir responder ao postigo! Em vez d’este, agora era o Coruja, que, ouvindo ladrar, levantava a sua cabeça para ver se aquella era a voz do seu amigo... Debalde esperou. A noite prolongava-se por seculos, e o coveiro, dando voltas entre o colmo, sentia um calor abafante, suspirava com afflicções e não podia dormir!
Logo muito cedo, ainda a manhã apontava, saíu do palheiro para continuar as suas averiguações. Junto da igreja encontrou umas creanças da freguezia visinha, que vinham para a escola, e uma das quaes lhe disse expontaneamente: