—Ó tio Cruja, já viu o seu Coisa?
O coveiro respondeu suffocado:
—Não! Onde está?!
—Olhe, tio Cruja, a gente viu-o morto ali no caminho.
—Morto!—pronunciou o velho com aspecto rijo, inteiro e com voz commovida.
—Sim, senhor, lá em baixo, ao pé da cancella—certificaram os rapasitos, fallando todos juntos, com a intimativa ingenua das suas vozes finas, apontando para longe, no fundo do valle!...
O coveiro foi ver. No andar tinha os movimentos rapidos e incongruentes de um côxo desvairado!... No rosto transparecia-lhe a expressão amarga e deprimente de uma intensa dôr, sentida com verdade! Os olhares eram impetuosos, lampejantes e vingativos; porque continuava a predominar no seu cerebro a idéa de que algum malvado lhe tinha morto o Coisa!...
Chegou ao pé da cancella. O pequeno goso estava deitado, immovel, composto como se estivesse a dormir. Depois que o pedinte faceto o suspendera pelo rabo, tornára a caír casualmente no sulco de carro, onde o seu pequeno corpo se ageitára, no ultimo momento da vida. Com o pello faminto, irriçado pela geada que caíra durante a noite, reconhecia-se ser aquelle mesmo o rafeiro que, nas manhãs de frio costumava correr, doido e despreoccupado, adiante do Coruja, quando elle ía para os enterros. A rigidez cadaverica, apoderando-se do seu corpo magro, com a fatalidade de um acontecimento necessario, dava-lhe uma expressão de insensibilidade absoluta, expressão de indifferença pelas preoccupações da vida terrestre!...
O coveiro ajoelhou na attitude piedosa de um crente. Tocou, quasi instinctivamente, com a mão, aquelle corpo inerte, para ter a indubitavel certeza da morte do seu unico amigo! Fel-o com a profunda veneração de uma alma rude; mas, n’este contacto do corpo de um cão morto, sentiu um longo calefrio de terror!...—elle que tantas vezes experimentára despreoccupado, o frio marmoreo dos cadaveres, que os costumava lavar e vestir, para depois os metter na cova e cobrir de terra!
O Coruja levantando-se hirto, subjugado, com as feições transtornadas e com as lagrimas nos olhos, e disse resignadamente: