—Isto... havia de ser o diabo do frio...

Um pouco depois, como se respondesse a uma pergunta, que fizera a si mesmo mentalmente, acrescentou:

—...Fome!? tamem seria fome... Honte não comemos nada!...

Passados momentos ainda considerou:

—Este raio da neve!... Pois elle, com um frio de mil demonios!... A gente sempre anda agasalhada; mas os animaes—coitados!—nem uma vestia, nem uns sócos!...

A final, tendo estado muito tempo sentado n’uma pedra a contemplar o corpo inanimado do Coisa, levantou-se com um impulso generoso e disse:

—Pois tu não és menos que os outros. Tamem has de ter o teu enterro com officio.

Dominado por esta idéa generosa, foi d’ali á igreja, buscar a sua enxada de coveiro, que costumava ter guardada por detraz do altar-mór! Era para abrir a cova ao Coisa. Na sachristia, revestia-se, para dizer missa, o padre José Pitança. Ao sentir pela igreja acima as pancadas sonóras e de uma intensidade desigual, de uns sócos, sobre o pavimento da igreja, observou ligeiramente para o sachristão:

—É o Cruja. Já vem por ahi com alguma carraspana. Eh!... Eh!... Eh!...

Quando o coveiro saía, atravessando a sachristia de enxada ao hombro, o ecclesiastico, com as mãos sobre o rins, atando as fitas do amicto, suspendeu o murmurar de resa e perguntou em voz alta: