—Quem diabo morreu, ó Cruja?

—O meu cão—respondeu com brevidade.

—E para que levas tu a enxada?

—Para lhe fazer um enterro.

O sacerdote teve uma gargalhada bulhenta de caçador. O coveiro offendido, respondeu-lhe com orgulho:

—Olhe que nem eu, nem você somos melhores que elle. Merece-o mais que muitos fidalgos.

E saiu bruscamente, coxeando.

O Coruja, com o fim de realisar a idéa generosa de fazer um enterro excepcional ao seu cão, procurou primeiro um caixão que lhe podesse conter o corpo. Para isso encontrou uma tábua comprida, sobre a qual o estendeu, alinhando-o cuidadosamente, para ficar bem composto, n’uma posição sensata e natural. Subiu a uma oliveira, da qual cortou uns ramos para cobrir o cadaver, para o enfeitar, dizendo n’uma voz socegada e de respeito: «esta é a tua mortalha». Depois, no proposito de organisar um acompanhamento e dar a isto uma apparencia de cortejo funebre, conseguiu que, a troco de uma promessa de pequena recompensa, quatro rapazitos que andavam n’um monte á garavalha, pegassem ao caixão. O caixão era a tábua com o cadaver em cima coberto pelos ramos de oliveira, posta em seguida sobre dois fueiros, tirados, pelo Coruja, de um carro que estava no caminho!... A cada extremidade de fueiro pegou um dos convidados. Depois, quando tudo estava em boa ordem, o coveiro, com a sua voz rouca e falhada, no tom faceto de uma alegria mentirosa, disse:

—Toca a andar rapasiada. Levemos este nosso irmão para o descanço eterno!

As creanças obedeceram com sinceridade infantil, caladas e respeitosas. O sahimento foi por um estreito caminho, com direcção a um alto pincaro, onde o Coruja determinou abrir a sepultura do seu velho amigo. Atraz do feretro ía elle, com a enxada ao hombro, a cabeça descoberta, um aspecto de contentamento triste, entoando o canto-chão, n’uma voz roufenha, pausada e distraída, imitando o phrasear dos sacerdotes nos officios: