—Meu rico irmão, como estás velho!

E Miguel, o valente marinheiro temerario, deixou caír ao chão a mala e as botas, dizendo por entre soluços:

—E tu como estás acabada, mulher! Como te venho encontrar!

Mas depois, como Miguel trazia algum dinheiro, que juntára cuidadosamente para esta eventualidade de voltar á sua aldeia, resolveu-se a comprar a mesma casa onde nascera, a qual seu pae tinha vendido por causa da longa cegueira em que viveu. O padre Beiral ajudou-o. A casa era velha e pequena; mas o campo adjunto era largo e magnifico terreno...

O espirito do maritimo principiou a sentir um renascimento, a remoçar-se, a ter os alegres impetos da mocidade. Era aquella a mesma paisagem que sempre vira até aos vinte annos. Havia o mesmo musgo nas mesmas paredes; a mesma hera segurando as pedras dos muros esbarrigados; os mesmos penedos no alto do monte sobranceiro á igreja, manchavam o azul intenso das tardes primaveraes; as sebes de silvas, cobertas de folhas perpetuas e de amoras, embeiravam os campos e caminhos; e, finalmente, na frontaria da igreja ainda estava quebrado o mesmo vidro, como no dia em que elle partira! O que encontrava de differente no longo espaço de trinta annos? Muito pouco: o cypreste do adro tinha crescido e até envelhecêra; a carvalheira do pé da fonte, que tres homens com as mãos agarradas não podiam abraçar, estava carcomida, porque fôra queimada por um raio; as tres casas novas, caiadas, que se distinguiam de longe com as suas claridades vivas, e cujas vidraças scintillavam com o sol poente, tinham sido levantadas por uns brazileiros ricos, um dos quaes tambem presenteára a Nossa Senhora da igreja, com uma lampada de prata, que causára inveja ás outras Nossas Senhoras da visinhança. Mas, de todos os factos que permaneciam, e que Miguel tanto estimava, aquelle que o chocou de um modo energico, aquelle que o penetrou em todo o seu ser com uma força omnipotente, foi o toque do sino grande da igreja, que ainda era falhado como d’antes!...

Quando agora o ouviu pela primeira vez, depois de tantos annos, eram trindades e estava comendo uma posta de bacalhau á lareira do Beiral. Deixou caír o garfo de ferro, ficou a olhar com um modo estupido, e as lagrimas corriam-lhe pelo rosto enrugado! Oh! era aquelle o mesmo som, que o accordava nos domingos despreoccupados da sua vida passada!...

Por todos estes motivos, o embarcadiço resolveu morrer na sua aldeia!... Estava velho, ainda que robusto; as fadigas e os trabalhos por esse mundo fóra tinham-no gasto muito. O mar... o mar para elle já não podia ser senão uma sepultura!... Uma grande sepultura decerto; mas, sepultura por sepultura, tinha ali uma na igreja que era mais perto, ainda que mais humilde. Ficava ao pé dos ossos de sua mãe que não conhecera, e de seu pae que não tornára a ver!... Resolvido isto de um modo terminante, principiou a interessar-se pela historia local, pela monotonia da conversa dos visinhos, a quem elle espantava com os successos da sua vida curiosa. Vieram-lhe tambem os desejos de grandes emprehendimentos agricolas—quiz cultivar o seu campo. Plantava hortaliças que mandava vender á villa, semeava batatas, colhia quasi um carro de milho, uma meia pipa de vinho e tinha muita fructa. Os seus melões e melancias davam-lhe orgulho—mandava-os vender ás romarias, onde já tinham nomeada e eram preferidos aos dos outros cultivadores! Tambem não admira, pois que lhes dedicava muito tempo e amor—regava a tempo, mondava-os com sagacidade, regulava-lhes o sol de um modo conveniente... O padre Beiral disse-lhe um dia, que não se fallava nas gazetas de que houvesse, em qualquer parte do mundo, outros melões como os d’elle. O Timão, orgulhoso e confundido, respondeu:

—Isso, senhor, é da semente e da Senhora da Bôa-Viage a quem os encommendo sempre!...

Mas havia na aldeia uma malta de rapazes, que tinham por brazão não deixar segura qualquer fructa boa, no quintal de quem a tivesse. Estes meliantes, n’esse anno em que o sacerdote gabou os melões, projectaram ir proval-os de noite. O Timão já andava com a pedra no sapato e, para os prevenir, disse um domingo no adro, ao saír da missa, fallando bem alto para ser ouvido, «que se alguem lhe fosse ao meloal o racharia de meio a meio