Foi n’esse tempo que, uma das febres endemicas n’aquellas regiões irregularmente humidas, o accommetteu de subito, com um longo calefrio, que o prostou n’um estado comatoso!... Recolheram-n’o ao hospital e, até terminar a convalescença, passaram-se aproximadamente dois mezes!... Durante este periodo de inactividade forçada, a sua memoria principiou a resuscitar-lhe o passado!... Era a primeira vez que estava doente! Alquebrado e enfraquecido que poderia fazer!? Com os elementos dispersos, que o seu pensamento lhe ía trazendo, pouco a pouco formava os quadros da sua vida infantil. As figuras dos homens que então conhecera, as raparigas com quem brincára, appareciam-lhe com um sorriso feliz e benefico, acompanhando-o n’estas distancias... Via-os como os deixára, porém, considerava que deviam estar mais velhos... que muitos teriam morrido... Não fôra elle tambem novo e forte, e não estava agora coberto de cabellos brancos e com rugas serpeando-lhe no rosto?! O tempo não corre debalde, e muitas das pessoas em quem pensava, estariam enterradas n’aquella pequena igreja caiada, que se lhe representava na imaginação!... Tudo isto lhe condensou no espirito o firme desejo de voltar á sua terra... Tinha algum dinheiro e, logo que se encontrou restabelecido, pensou em tomar o primeiro navio que viesse para as costas de Portugal ou de Hespanha. Assim o fez, embarcando com a saudade insoffrida de um rapaz de vinte annos!...

Era um domingo de primavera o dia em que entrou na sua aldeia... O céu azul, a pureza do ar, a alegria dos campos em flor... lançavam-lhe na alma enthusiasta vibrações de uma harmonia complexa e guerreira. Do intimo da terra saíam musicas genesiacas no aspecto da paisagem enebriante. As flores roxas e brancas das macieiras e das cerdeiras abriam-se em leques multiplicados sobre os campos verdes d’onde sobresaia o branco virginal dos malmequeres, a côr serena das violas, o vermelho sanguineo das papoulas bravas... Os trigaes viçosos palpitavam com o seu crescimento gradual, entre as largas manchas escuras das recentes searas de milho.

As raparigas cantavam nos campos, atraz dos seus bois de cornos retorcidos que pastavam, fiando as estrigas da tarefa. A temperatura de um tepido parasidiaco e sensual enlanguescia, produzindo sensações dominadoras, fazendo comprehender os movimentos fecundantes da seiva universal!... Era um estonteamento de vinho forte o que subia á cabeça rija do velho maritimo, que caminhava lento e absorvido, reconhecendo todos aquelles logares queridos da sua infancia! Os olhos humedeciam-se-lhe de lagrimas, e o contentamento e a felicidade que lhe percorria ao longo dos nervos, entorpeciam-n’o... Os homens e as raparigas que passavam, interrogavam este desconhecido com olhares insistentes...

Quem será este homem, que caminha dando sacudidellas aos hombros e que tem o andar de um borracho!?...—pensavam.

Então elle parava para lhes perguntar numa entonação estrangeirada:

—Conheceis a Cathrina, filha do cego da rocha?

Conheciam perfeitamente; mas não era nenhuma rapariga. Muito pelo contrario, a mulher que tinha esse nome mostrava-se já muito velha, corcovada e doente... A sua vida era esmolar pelas aldeias e dormia por caridade n’um palheiro do padre Beiral. Mas espantavam-se que o desconhecido principiasse a chorar com estes esclarecimentos e perguntavam-lhe compadecidos:

—Quem é você, hominho? Para que quer saber da Cathrina, e chora?

Mas o homem da barba branca, que andava como um desengonçado, não lhes respondia e continuava a caminhar para a residencia que se via d’ali, na encosta, ao pé da igreja. Levava ao hombro, enfiado n’um pau, uma mala de couro e umas botas de canos... Este modo de andar aos solavancos impressionava os que o viam... Não podiam saber quem fosse e ficavam a olhar uns para os outros!... Mas quem o reconheceu, mesmo antes d’elle fallar, foi Catharina, que se lhe agarrou ao pescoço, chorando e repetindo muitas vezes: