A beata Vicencia, quando lhe ouvia esta jura, recuava berrando:

—Abrenuncio! Santo Nome de Maria, que nos póde vir um grande castigo por causa d’este excommungado!

O Timão retorquia-lhe com olhar de piedade:

—Calla-te minha papa-hostias. Bons castigos soffri eu por esse mundo.

Porém, o plano de roubar o meloal estava estabelecido, os rapazes não trepidaram. O da Engracia é quem saltaria dentro, para encher o sacco. O Teixugo e o Cambado ficariam no caminho, de vigias; o Telhas em cima do muro. Á meia noite o Tone desceu do muro, cautelosamente ajudado pela corda presa ao carvalho, para não ser presentido... Quando assentou os pés na terra defendida pela navalha hespanhola e pelo bacamarte de bôca de sino, estremeceu involuntariamente!... Sentia, dentro em si mesmo, uma opposição, á qual resistiu com toda a força da sua energica vontade. Talvez desejasse retroceder; mas atraz de si, em cima do muro, estava o Telhas, a quem chamára fracalhão, e que logo que o viu um momento parado e apurando o ouvido, lhe disse com uma ironia perceptivel:

—Home, não tenhas medo. O velhote dorme como um porco.

O rapaz encorajou-se subitamente, levantou a cabeça com orgulho e começou a andar com certa resolução temeraria. Na profundidade da noite tranquilla, serena e sem luar, ouvia-se o cochichar subtil dos vigias, o som gemebundo e extenso de dois sapos, o ruido estival, permanente e continuado dos ralos!... Um grande morcego manchou a limpidez do ar com o seu vôo largo, produzindo um silvo. A pequena casa do Timão ainda se percebia ao fundo, por entre as arvores de fructa, como uma massa confusa. A escuridade e o silencio augmentam sempre o medo, e no cerebro do Tone da Engracia, as idéas principiavam a atropellar-se, a confundir-se, a tomar fórmas...—diante dos seus olhos, configuravam-se homens aggressivos. Por isso elle tornou a parar no meio do campo! Então sentiu-se n’um isolamento mais completo, como o do alto mar!... Por cima o céu limpido, as estrellas com movimentos crepitantes de luz, a amplidão cheia de uma sombra grandiosa...—um certo palpitar da natureza que o subjugava! A pequena distancia, em cima do muro, o Telhas, como uma reprehensão sempre viva. Qualquer manifestação de receio, de pavor, que sarcasticas censuras não encontraria?! No entretanto, n’este instante nervosamente inexplicavel, a figura do velho marujo endurecido nos trabalhos e nas difficuldades, appareceu-lhe na imaginação, com uma realidade que feria! N’este momento o Telhas tossiu ao longe! O Antonio estremeceu e teve um calefrio ao longo da espinha! Estas duas circumstancias, bem diversas, deram-lhe o impulso definitivo, e o Tone começou a caminhar ousado, direito, altivo e até insolente! Passando por entre as hervas e calcando as folhas seccas fazia um ruido imprevidente... Que lhe importava a elle que apparecesse o velho maritimo! Aquella tosse casual de um dos seus companheiros teve nos seus ouvidos uma ressonancia ironica, aguilhoara-lhe a vaidade, restituira-lhe a sua coragem e temeridade habituaes.

Entrou no meloal. Principiou a agachar-se muitas vezes, para escolher o que havia de melhor. Estava apparentemente sereno, não temia ninguem. Levantava os melões para os suppezar, para os levar ao nariz pelo lado do pé com o fim de lhes apreciar o adiantamento da maturação. Affastava as folhas largas, carnosas, recortadas das melancias...—queria escolher as mais sazonadas. O que lhe ía servindo cortava rente pelo pé, e logo ía depositar, a dois passos, no carreiro junto do sacco. N’um d’estes instantes, o silencio da amplidão foi cortado por um chiar de gonzos prudentissimo... O Tone levantou a cabeça á escuta... Não percebeu mais nada: talvez fosse a passagem de algum noitibó por entre a ramagem das arvores. A escuridade não o deixou ver a cabeça do Timão, que appareceu ao postigo, escutando... O da Engracia continuou. Mas, quando tinha cortado mais um melão e que o ía levar... sentiu certa difficuldade em mover um pé!

Empregou impensadamente um esforço mais energico para vencer esta opposição; porém, sem logo perceber porquê, caiu redondamente no chão, de bruços, produzindo na quéda o baque de um corpo sem vida!—tinha os pés presos n’um laço intelligente, armado pelo marinheiro, para agarrar um ladrão presumptivo. O temerario rapaz deu um grito e esforçou-se logo por se levantar, colleando como uma cobra ferida na cabeça!... Porém, soccorrel-o, era impossivel. Os companheiros, atterrados pelo som do bacamarte de bôca de sino que o embarcadiço disparou para o ar, fugiram, tendo ainda tempo de ouvir esta phrase temerosa: