Emilio principiou a interessar-se nos movimentos apparentemente caprichosos dos pequenos insectos. Os seus olhos vivos e animados seguiam com cuidado, com esmero, aquelle trabalho das formigas-obreiras, que tombavam a pedra, levando-a na direcção desejada. Calado, de bruços, com o pequeno queixo sobre o punho, observava attenciosamente todos os movimentos, tendo as linhas faciaes n’uma contencção rigida, nervosa, reveladora de um esforço intimo. A mãe, apreciando incompletamente este silencio de seu filho, disse-lhe com ligeiro ar de triumpho:
—Mas sempre te calaste...
Ao que elle respondeu promptamente:
—Mas vou gritar mais.
E retomou o seu choro com nova energia, com mais vigor. Porém, como viu que a mãe se rira escarnecendo-o, reconheceu-se vencido, mediocre, e cheio de vergonha pela sua imprevidencia, pela falta de tenacidade, fugiu d’ali chorando alto com asperos gritos de raiva.
Foi pelo corredor adiante para a varanda, que dava sobre os campos. Era uma larga paisagem com o horisonte recortado pelas alturas das arvores desiguaes. Os altos castanheiros com as suas folhas lenhosas, rijas e de um verde claro, distinguiam-se dos pequenos carvalhos fortes, atarracados, folhudos e das cerdeiras vistosas, de ramagem espalhada, e de um verde mais suave.
O pequeno Emilio observou, com a serenidade dos seus grandes olhos negros, todo este conjuncto. A sua physionomia era meia contemplativa, meia raciocinadora. Media, com despeito, a enorme superioridade d’aquellas arvores, pela ostentosa corpulencia com que se destacavam ao longe. Mas depois, por um movimento natural, com uma reacção instinctiva, fez este juizo simples e claro, dando ás suas palavras um tom imperativo, com os beiços alongados:
—Tambem eu sou capaz de subir a cima d’ellas, como o Manuel!
E com o seu pequeno rosto de uma auctoridade expressiva, ficou a olhar para os campos, fixando soberbamente as arvores, ás quaes se reconheceu superior.