Sentia-se forte como o Manuel, o creado da lavoura. Nos seus musculos havia uma energia latente, a sua vontade era uma voz de commando, intima, secreta, mas absoluta. Elle podia-se mover, andar, ir buscar uma cadeira, arrastal-a até á varanda para subir, para ver as arvores que estavam nas orlas dos campos, quietas, n’uma immobilidade permanente!...
Ao longe viu duas vaccas que pastavam, com a cabeça baixa e o pescoço estendido para a herva. De vez em quando moviam com lentidão, os seus corpos volumosos, dando passadas de vagar, mas pousando com segurança os seus pés. Outras vezes levantavam a cabeça, espalhando mansamente o seu olhar sereno pelas encostas, e, se viam outras vaccas, mugiam com uma voz ululante, vaga, de uma expressão triste. Um pequeno rapaz de dez annos, forte, sujo e travesso, vigiava as vaccas. Em certos momentos, quando ellas se aproximavam das vinhas, era elle que as enxutava, picando-as cruelmente com a aguilhada, berrando-lhes alto, com energia, obrigando-as a tomarem a direcção que desejava.
O pequeno Emilio apreciou, da sua varanda, estes factos com um olhar meditativo, profundo, e conheceu-se intimamente capaz de mandar n’aquellas vaccas, de andar n’aquella liberdade dos campos, correndo, saltando, subindo ás arvores, dando quédas, dando gritos, picando as vaccas...
N’este momento todo o seu ser estava possuido de uma forte necessidade de posse, de commando. Desejava ser livre como aquelle rapaz que via ao longe, no meio do campo, com um imperio indiscutivel e tyrannico sobre a vontade d’aquelles animaes possantes, que obedeciam resignadamente á sua aguilhada. Emilio sentia-se tomado de uma grande ambição, de um sentimento de energia que o tornava audacioso... Desejava possuir todo aquelle mundo que via—as vaccas, os campos, as arvores, as casas, as poças de agua, os pombos que passavam no ar com o seu vôo rapido, as proprias nuvens que estavam suspensas, como ephemeros frocos de espuma. Mas queria possuir tudo, mandar em tudo de um modo absoluto, incondicional!
—Se morresse toda essa gente... era tudo meu!—raciocinou atrevidamente.
Essa gente eram os outros, os que possuiam aquellas cousas todas, que no momento elle ambicionava!...
E com as palpebras immoveis, as pupillas fixas n’um ponto indeterminado, as sobrancelhas severamente contraídas, os beiços alongados como os de um macaco colerico, o queixo apoiado na mão esquerda, contemplou a grandeza do mundo que via da varanda!
Por fim, absorvido na sua idéa de poderio, de auctoridade, desceu da cadeira e, calado, altivo, arrogante, foi por um corredor escuro que se abria na sala.
Entrando, observou com intrepidez, com supremacia indiscutivel, os retratos e as gravuras que estavam pendentes das paredes. Sustentou um olhar de soberba, com a estatueta de porcelana, que representava Christovão Colombo com o mundo na mão esquerda. Reparou com desdem altivo n’outra de um velho general do primeiro imperio, que faiscava coleras marciaes dos olhos coruscantes, tendo o seu chapéu napoleonico de travez, na direcção dos fartos bigodes, e apoiava a mão esquerda nos punhos da sua espada invencivel. O pequeno Emilio, vendo casualmente no espelho da parede, que o seu pequeno rosto tinha bastante séveridade, encarou de novo o general, ainda com mais intelligencia e sobrecenho, conservando-se firme, auctoritario e dominador!