—Escrevo sim; mas é para me inspirar. Tu bem sabes que estas coisas são sempre as mesmas. Está tudo sabido, já se não póde inventar. A questão é de modo. Percebes abbade?
No sabbado, vespera da terceira dominga chegou a Refuinho o pregador. Foi-se hospedar na Residencia. A sua entrada na aldeia foi celebrada com alegria pelo ajuntamento de povo, que estava no adro da egreja e até haveria repiques e foguetorio, se não fôra tempo santo de quaresma.
O Agrella, que ajudava o armador de Braga, veio dar ao padre Silvestre, um aperto de mão, affectuoso e familiar.
—Cá andas tu como o peixe n’agua—disse-lhe o pregador.
—Não ha remedio senão dar um gaudio á raparigada—respondeu o alfaiate. Muito estimei vel-o por cá, meu senhor. Ha que tempos!... Temos ahi uns Passos d’arromba. Não haverá outros, cinco leguas em redor.
O padre Silvestre saudava a todos de cima da burra. Os semblantes dos camponezes eram risonhos, como se tractassem d’um noivado. Este rumor attrahiu o abbade que se chegou á janella. Ao avistar o seu antigo condiscipulo, gritou-lhe:
—Eh! Souséca! Sobe para cá diabo.
Mas foi elle que veio abaixo, de tamancos e meias de lã, envolvido no amplo capote. Tomou o hospede entre os braços, apertou-o com amisade.