A TRUTA GRANDE

Lá está o padre João, a dormir na sua cadeira de braços, debaixo da fresca lata! Peito ao léo, as abas do amplo casaco de lustrina pendentes, breviario para um lado, lenço para outro, caixa do rapé na mão, o ventre arfando pausadamente... É todos os dias assim, depois de jantar, no tempo dos calores. Para avaliar a tranquilidade de certas almas, é melhor sentir-lhe a respiração suave, do que ler, tudo quanto pensadores e casuistas, tem escripto acerca de moral. E julga-se um homem accordado, o sereno eclesiastico, pois regouga palavras incomprehensiveis! Em que bello paiz de sonhos trabalhará a sua ideia?! Sorri-se, o labio papeja-lhe de contentamento... É que está á borda do rio, a canna de pesca firme, o olho interessado, a respiração silenciosa. Rabea-lhe em volta da isca e em breve a morderá, o peixe guloso e estupido. A superficie da agua é serena. A transparencia deixa ver o fundo limoso e, talvez, a truta grande, com a magestade do seu nadar, passe altiva, a distancia.

Ah! magnifico padre João, como estaes evidentemente enganado! Os tremulos e repetidos puxões que vos agitam o corpo, ebrio de goso, não são do peixe a depennicar na isca, são as gallinhas em cata de moscas. Ellas é que vos tiram pelas abas sebentas do casaco de lustrina, querido e obeso, padre João!...

O dia era d’agosto e bem quente. Atmosphera tremula e translucida, como se fora de crystal fundido. No rio, as lavadeiras entoavam canticos religiosos aprendidos com os missionarios e modas profanas colhidas dos cegos que passavam. Nos campos em redor, áquella hora, não havia murmurios do trabalho, pois já tinham acabado as sachas e as mondas. As regas, essas faziam-se de noite. Eram duas da tarde e entram no quinteiro os discipulos do latim. Ao verem o respeitado mestre, tão docemente adormecido, deixam-no em paz e vão gazear para os lados do rio. O porco foi menos condescendente. Tardava-lhe a lavagem e principiou a grunhir em volta do quinteiro, parando com o focinho erguido para a cosinha. Este barulho espertou o excelente ecclesiastico. Primeiro abriu um olho, depois outro, conservando-se alguns minutos em contemplação, mãos crusadas sobre o ventre. Parecia contar detalhadamente os doirados cachos que formavam um docel sobre a sua cabeça! Por fim ergueu o tronco considerando:

—Então não me ia deixando dormir?! Pois não é o meu costume. Ó Luiza!—chamou repetindo tres vezes.