—Não tenho os seus costumes, seu bebedo!—respondeu o fidalgo, mostrando na palma da mão as cruzes da moeda.
E atirando ao ar o pataco com força, viram-no cahir a distancia. Os dois pescadores correram cheios de commoção.
—Cunhos!—gritou o morgado ao ver a papuda efigie do rei D. João VI.
O padre João acceitou resignado a sentença. Encostou a um valado a canna, tirou prodiga pitada da caixa de prata e foi-se sentar n’uma pedra trauteando cantochão, talvez pela mesma razão que tem os condemnados á morte, para pedirem que rufem os tambores, junto do cadafalso. D. Luiz augmentava-lhe o supplicio, caminhando vagarosamente para a margem. Dois annos de pesquizas e cuidados iriam terminar n’aquelle instante, pela victoria do seu adversario? Desappareceria aquelle tropheu de gloria, que lhe dera tantos sonhos enthusiastas? Principiou a cantar alto, desvairado por um sentimento de malevolencia. O da Torre Velha advertiu-o:
—Isso é para espantar, padre João?
Callou-se ficando n’um abatimento triste.
Ia presenciar a sua vergonha. O dia estava magnifico. Com ar de trovoada o peixe pica, que nem mil diabos! E figurava-se-lhe na imaginação a truta grande de guela aberta, aboccando a minhoca do barbaças. Era horrivel e desoladora esta possibilidade!
Mas porque é que o cubiçado peixe não havia de fugir? A maior parte das vezes é o que succede—consolou-se. A elle mesmo não lhe tinha acontecido? Ella a serenar, a serenar, muito quietinha, deante dos seus olhos, nem parecia coisa viva... Procurava o lado de cima, lançava o anzol a distancia para vir nadando pela agua a baixo como um bicho inexperto, e afinal, a truta que para elle era o animal mais intelligente da creação, escapulia-se por entre os penedos, que era um regalo! Quantas vezes isto lhe succedera? Uma infinidade.