Ainda outra consideração:
O morgado não era grande pescador de linha. Ignorava muitos segredos da arte sublime e não possuia todos os petrechos. Teria elle escolhido uma sedela bastante verde-agua para não ser percebida, e bastante forte para resistir aos repellões do valentissimo animal?! A truta é o peixe mais valente do rio, tem uma força que poucos apreciam. Talvez o seu antagonista não soubesse calcular essa rijeza—considerou.
Porém a gravidade do caso parecia ter dado ao D. Luiz uma intelligencia agudissima. Atirou calculadamente o seu anzol e seguia pela margem, com o olho álerta e prompto a dar a pancada, logo que chegasse o momento. O padre João teve vontade de fingir uma dôr, só para o perturbar. A anciedade do seu peito, crescia tumultuariamente, como oceano em furia. Aquella alma bondosa, teve a ideia repugnante de desejar uma apoplexia ao fidalgo! Mas reconhecendo-se criminoso, por este mau pensamento, poz o coração á larga, tornou-se magnanimo e até, mentalmente, pediu a Deus, que deixasse o morgado pescar a truta grande. Mas o da Torre Velha relanceou-lhe um olhar triumphante e o padre João, logo mudou de parecer, rosnando:
—Ah! ladrão! que se ella te foge muito me hei de rir.
O instante verdadeiramente supremo ia chegar. O anzol já se podia calcular perto da pedra branca.
Que infernal chamma abrazava o peito do ecclesiastico!? Poz-se de pé, só para seguir nas minudencias toda a peripecia. O fidalgo, attento e subtil, empregava o maximo da sua intelligencia.
Afinal, sente a pancada! Curva-se a ponteira! O peixe estava preso!
—Ah! grande maroto, que m’a roubaste—exclamou o ecclesiastico.