UM CORVO E UM PAPAGAIO
(CONTO PARA CREANÇAS, OFFERECIDO AOS MEUS FILHOS)
Isto passou-se no tempo dos animaes fallantes:
Um velho corvo, tendo de edade perto d’um seculo, n’um dia de muita chuva e vento, veiu, já sem forças, poisar na beira d’um telhado. Este valente da amplidão dos ares, tinha perdido toda a arrogancia do seu porte; encolhido e a tremer não se podia já ter nas pernas. A extremidade amarellada das suas pennas, outr’ora tão negras, mostrava que padecia de velhice e de fome. Ao habitante eterno dos penhascos sombrios, ao motejador das tempestades que assustam os homens, coube-lhe o vir dar o ultimo suspiro da sua longa vida, perto do comedoiro farto e luxuoso d’um vulgarissimo papagaio real. Este, de papo cheio, e aquecido pelo ar tepido da cosinha, ao sentir a queda do corpo enfraquecido do corvo, perguntou d’um modo gracejador:
—Que é lá!? Quem passa?