Uma voz quasi soluçante, conservando a meiguice dum peito corajoso, e o vigor do suspiro d’um general moribundo nos campos de batalha, respondeu:

—Gente de paz, amigo. Descanço um momento.

—Olha um corvo!—gritou o papagaio cheio de medo. Aqui d’el-rei que me come! Antonio, acode!

Mas o corvo, com uma voz tranquilla e cheia de bondade, serenou-o:

—Não te assustes... Não tenhas a meu respeito a opinião do povo, que é errada. Sou meigo e infeliz. Tive filhos, casa, uma companheira de muitos annos e tudo isto me roubaram os homens. Durante a minha vida d’um seculo, tenho visto mais barbaridades praticadas pelos corações piedosos, do que todas as que attribuem á minha raça maldita.

O papagaio, ainda receioso, mas cheio de curiosidade perguntou:

—Então não és feroz e cruel como dizem?

—Não. Tenho affectos; no alto dos meus queridos rochedos, muita vez escutei com prazer o canto dos passaros nossos irmãos e a alguns quiz imitar. Amigos meus e meus irmãos viveram entre homens, tornaram-se familiares, chegando a comprehender a linguagem que se falla. Eu sempre gostei do ar forte e da liberdade das montanhas. Hoje enfraquecido e cheio de fome fui arrumado para este telhado, pelo vento que toda a vida escarneci. Ha muitos dias que não como, dás-me alguma coisa d’isso que ahi tens?

—Não posso—respondeu o egoista.—O meu arroz mal chega para mim... Tu tambem o não comias. Do que mais gostas, segundo dizem, é de carne podre.

—Que remedio tenho eu, á falta de melhor? É o unico alimento dos infelizes que vivem nas solidões. Comemos tudo... a fome é negra. O teu arroz cheira tão bem... Dá-me um bocadinho? Poucos minutos me restam de vida. Deixa-me ao menos aproveitar da tua comida, isso que tu deitas fóra e desprezas.