Fez um esforço para voar; mas não podia. No entretanto esse mesmo movimento d’azas atemorisou o papagaio que bradou:
—Não te chegues, não te chegues! Tu o que desejas é comer o meu arroz e talvez engulir-me a mim mesmo. Nada de brincadeiras. Essa tua fraqueza póde muito bem ser fingida, para me enganares. Não te chegues, senão chamo o Antonio, o meu amigo cosinheiro, que arranja coisinhas boas para o meu papinho, e se elle vem, olha que dá cabo de ti.
O corvo, quasi agonisante, soluçava tremendo de frio e de fome:
—Não me odeies, lá por eu ter má opinião em toda a gente. No tempo em que era forte, quantas vezes não cobri com o meu corpo, muitos passarinhos que não podiam resistir á tempestade?! Fiz o bem que pude. Soccorre-me hoje, que estou para morrer.
O papagaio, desconfiado e vaidoso, temendo que o rustico habitante dos pincaros lhe sujasse a plumagem vistosa, ordenou:
—Então deixa-te estar ahi. Vou pedir ao Antonio que te deite um pedaço de carne, da que não presta. Talvez a não mereças; mas devemos ser caridosos—concluiu espanejando-se.
O velho corvo, já sem altivez, agradeceu com ternura na voz:
—Obrigado. Nosso Senhor t’o pague.