No telhado porém, não podia resistir aos impulsos do vento. Confiado, ou talvez contra vontade, deu um vôo, do beiral onde estava, para o poleiro, desculpando-se:
—Tem paciencia. Não posso estar alli. Comerei n’este cantinho a esmola que me fazes.
Mas a proximidade d’aquelle corpo sujo, volumoso, d’aspecto selvagem, assustou o timido papagaio real, que logo gritou fóra de si:
—Ó Antonio. Traz o pau!...
E esvoaçava sem querer poisar. Agarrava-se á corrente que o prendia ao comedoiro. Tremia de verdadeiro medo, elle saudavel e nedio, diante d’este habitante dos rochedos, que estava a dar o ultimo suspiro.
O cosinheiro, ao ver o corpo immundo e repellente, perto do seu estimado papagaio, exclamou irado:
—Olha o ladrão de um corvo!...
E dando uma pancada no animal desfallecido, atirou-o sobre o lagedo da rua, onde o desgraçado morreu logo. Em seguida, o Antonio com o fim de socegar o seu querido, passava-lhe com brandura a mão na cabeça dizendo:
—Calla-te loiro, não tenhas medo. Queria-te fazer mal? Levou a sua conta. Coitadinho do loiro, coitadinho do loiro.