Assim se cumpre, muitas vezes, a justiça na terra. Meus filhos, não se deve acreditar facilmente nas culpas d’aquelles que são infelizes, principalmente quando precisam de que se lhes faça bem.
Lisboa, Março, 85.
A VISTA DO SALGUEIRO
(CONTO PARA CREANÇAS)
Ambrosio era velho e vivia n’uma casa muito pobre, toda esburacada e de telha vãa. Lá dentro, os ratos eram tantos como as formigas n’um carreiro; e elle, sentado ao lume, via-os ir e vir, sem mesmo ter medo d’elles. Por traz da casa havia um pequeno quintal, ao fundo corria o rio, e pegado estava o moinho, habitado pelo moleiro, homem que elle odiava mais do que a morte.
Na tarde serena d’um dia d’agosto, Ambrosio, foi visto na margem, sentado n’uma pedra, o queixo pousado nos joelhos, a olhar fixamente e pasmado para uma arvore do outro lado. O ceu era dum azul pallido; as aguas passavam silenciosamente, até entrarem na guela d’azenha, onde produziam um sussurro; a roda movia-se de vagar; porque a força do rio era pouca... O pensamento d’Ambrosio voava, n’um mundo de independencia e maldade, planeando vinganças contra o moleiro seu inimigo. Era um odio velho, nascido de conflictos diarios, aggravado por muitos nadas de que, o do moinho, nem tinha consciencia. No corpo d’Ambrosio, magro como de feiticeira, passava-se no momento em que o viram a olhar para o triste salgueiro, uma lucta violenta e feroz.