N’esse dia, apparecera-lhe em casa, um bacoro de perna quebrada. Sem mais reflectir attribuiu logo o maleficio ao damnado visinho e foi para alli ruminar uma vingança, que o deixasse consolado. Tinha um coração de pedra este demonio de velho! Se não fora assim, como poderia gozar, inventando martyrios, n’uma tarde serena de verão, toda silencio e bondade!
Mas não se desprendia do terrivel desejo de matar o moleiro, com os maiores soffrimentos e castigos, que no mundo tivesse havido! Seria capaz de se vender ao diabo, só para conseguir o seu fim.
Veio-lhe esta ideia audaciosa e encarou-a resolutamente. Tão firme foi o seu pensar, que logo o diabo em pessoa alli lhe appareceu deante dos olhos, offerecendo-se-lhe para tudo, em troca da alma se elle realmente lh’a queria vender. Era figura bem conhecida, a que estava deante de Ambrosio:—meio homem, meio cabra; um comprido pello cobrindo-lhe o corpo; um rabo a dar para um lado e para o outro, como o d’um lobo; os cornos arrebitados na cabeça; e os olhos a coriscarem como dois carvões accesos. O velho não se atemorisou, e como desejava vingar-se do moleiro, sentiu o peito cheio de goso, quando o diabo lhe disse:
—Ouvi a tua voz. Aqui me tens. Acceito o teu contracto. Pede o que quizeres.
—Então tu é que és o diabo?—perguntou.
—Eu mesmo. Sou o que tudo posso depois lá do Outro (apontou desdenhosamente para o ceu). No meu reino posso mesmo mais do que Elle.
—Fazes-me tudo quanto eu quizer para matar o moleiro?
—Tudo, com tanto que me entregues a tua alma.
—E para que queres tu a minha alma?