{3}
Meu Amigo, e Senhor. Graças a Deos, que depois de huma enfermidade dilatada me acho restituido a estado de poder escrever a V. m. e naõ foi pequeno milagre escapar da cura, em que tive mayor perigo, do que aquelle, que me causava a molestia; pois por muito pouco que a natureza se descuidasse em me soccorrer, sem duvida entre a má applicaçaõ dos remedios perderia irremediavelmente a vida. Agora que me acho livre do susto nesta convalescença, ja que naõ posso fazer outra cousa, quero-me divertir ao menos em dizer a V. m. o de que escapei pelos enganos da Medicina, e pela ignorancia de alguns de seus professores, que ordinariamente se reputa por hum grande bem, e excellente soccorro para a conservaçaõ da vida; mas eu entendo que neste caso podemos exclamar com Seneca: Oh fallax bonum, quantum malorum fronte, quàm blanda tegis. E eu naõ sei se conseguiriamos huma melhor utilidade sem o suffragio deste chamado bem, do que com a introducçaõ deste honesto, e louvavel engano.
Todos sabemos a correspondencia, que o homem, mundo abbreviado, tem com a grande extensaõ do mundo, porque assim como este subsiste pela uniaõ dos quatro elementos, assim tambem o corpo se conserva pela mistura dos seus quatro humores; e pervertido o bom equilibrio de algum delles, se conhece logo aquella ruina, que fica debaixo da sua jurisdicçaõ. Como naõ podemos conhecer estas causas occultas, recorremos ao soccorro dos Medicos, relatando-lhes os effeitos, que sentimos, para que elles, segundo os preceitos da sua arte, cheguem ao verdadeiro conhecimento das causas, e applicando-nos o remedio, restituaõ a natureza ao seu verdadeiro tom. Este he o fim da Medicina, e o para que{4} buscamos os seus professores. Mas hoc opus, hic labor est.
Ninguem póde duvidar ser a Medicina huma arte Divina, e para credito da sua excellencia basta ser exercitada pelo mesmo Christo, de que o novo Testamento, nos offerece repetidos exemplos; e Deos pela boca do Espirito Santo nos manda honrar muito os bons, e verdadeiros professores desta sciencia: como tal tem seus principios certos para dirigir os seus professores, de sorte que a exercitem em utilidade dos homens, e em bebeficio das Republicas; porém os que se naõ applicaõ como devem no conhecimento desses principios, destroem sem duvida a excellencia da arte, e invertem o fim, para que ella se introduzio, de sorte que a enchem de imposturas, e defeitos; e enganando o mundo com a sua pessima pratica, fazem conceber a huma arte taõ nobre, e taõ necessaria hum odio entranhavel, hum susto continuo, e hum desprezo universal, de que se segue conceberem todos, que sem duvida andaõ enganados, e nunca desenganados destes falsos Medicos. Por este receyo entendo que naõ deixará de ser mil vezes melhor na presença de alguma queixa viver antes com ella, do que entregar-se nas mãos de qualquer Medico, pela difficuldade, que temos em distinguir o máo do bom; porque será muito melhor viver mais tempo, ainda que sujeito ao discommodo de huma saudade arruinada, do que abbrevir a vida com o pretexto de recuperar a saude.
A enfermidade presente me acabou de desenganar, porque por muitos principios comprendi o pouco conhecimento, que alguns professores tem dos principios das queixas, e o muito, que confundem os effeitos com as causas; e o que he mais sensivel, o grande descuido, que tem em exercitar o officio de coadjutores da natureza, porque principiando a molestia por huma indigestaõ, quizeraõ tirar-me pelas veyas o mal, que tinha no{5} estomago; e concebendo a febre por causa, sendo na verdade effeito, arrastràraõ para a massa do sangue o que estava nas primeiras vias, e sem outra alguma evacuaçaõ me puzeraõ a morrer, quando com pouco trabalho me podiaõ ter curado; mas por naõ passarem da tarifa, para cuja observancia me parace que tem dado entre si juramento, sobre indigestaõ vieraõ leites, vieraõ tizanas, vieraõ frangos, e o que veyo de mais especial foraõ humas pitadas de nitro, e com a simples repetiçaõ destas drogas pertendiaõ livrar-me das garras da morte.
Este facto proprio me fez lembrar huma especie, de que sem duvida naõ passaõ as enfermidades de tres classes, ou saõ de sua natureza curaveis, ou incuraveis, ou indifferentes. Nas curaveis póde a natureza supprir todos os erros da arte: nas incuraveis nem toda a arte póde emendar a ruina da natureza, e por força lhe hade ceder: nas indifferentes he que he todo o trabalho, todo o susto, e todo o perigo.
Ora diga-me V. m. Quem com huma doença indifferente se ha de metter sem susto nas maõs de hum Medico, que poderá naõ conhecer os principios da sua queixa, e suppondo que he huma, curalla como outra, com o que póde vir a ser maligna huma leve fermentaçaõ febril, com que a natureza se pertende muitas vezes aliviar? Quem naõ terá susto de ver á sua cabeceira hum homem, de quem, como de causa segunda, está dependente a sua vida? Quem deixará finalmente de estar a cada hora esperando que lhe cortem os fios da vida simplesmente com dous rasgos de huma penna, ou com hum, ou dous leves borrões de tinta? O certo he, que tudo isto se póde temer, vendo-se a pouca diligencia, que a mayor parte dos Medicos fazem para curar bem, e a negligencia, que se pratica, para que sómente curem os bons Medicos. Bem conheço que dos homens he o errar,{6} e que só as intelligencias estaõ izentas deste defeito; mas como a Medicina tem preceitos certos, como he possivel que deixem de errar todos aquelles, que ignoraõ os principios, ou se os sabem, naõ passaõ de huma pura materialidade, sem que o discurso se adiante a fazer com que elles tenhaõ todo aquelle bom exito, a que se terminaõ? Eu assento em que deixada a certeza dos principios, e certas leis, a que está sujeita esta sciencia, toda a Medicina se funda em hum bom discurso, e raciocinio; e quem melhor o fizer, esse poderemos ter por melhor Medico: sendo certo que em huma casa ás escuras tanto vê quem tem dous olhos, como quem naõ tem nenhum, e que mais acertará quem melhor tino tiver. Mas como póde atinar quem naõ tem bom tacto? E como acertará ás apalpadellas quem naõ tiver hum bom discurso?
A este respeito quero referir a V. m. hum successo moderno, para confirmar que antes me hey de curar com hum Cirurgiaõ de experiencia, a quem assista hum raciocinio claro, do que com hum Medico máo, que naõ tenha outro discurso mais, que para entender muito ao pé da letra huma infiada de afforismos de Hypocrates, e sentenças de outros membros graves, restauradores da antiga Medicina, a quem como oraculos recorrem, e de que tem feito na memoria hum bom deposito para comprarem a credulidade do vulgo ignorante. Ainda naõ ha quinze dias, que achando-se certo Cirurgiaõ dos de melhor credito na quinta de hum Fidalgo nas vizinhanças de Lisboa, se ouvíraõ de repente humas vozes chamar por Confissaõ. Acudíraõ a estes clamores varias pessoas, e logo hum Sacerdote douto, levado do pio zelo, inseparavel do seu instituto, acudio com o Sacramento da Penitencia a hum pobre homem, que por elle estava suspirando. A este tempo acudio tambem o bom Cirurgiaõ,{7} e achando hum pulso alguma cousa opprimido, e a vista indicando huma especie de frenezim, para cuja suspeita concorria tambem a incerteza das palavras, se lembrou de que os preceitos da arte determinavaõ neste caso a sangria, e outros remedios violentos, e quasi se vio convencido a fazellos; mas discorrendo sobre os mesmos preceitos, lembrando-lhe algumas das suas limitaçoens, suspendeo este meyo, e recorreo a outro, formando juizo de que pelas informaçoens, que tomou do estado, em que antecedentemente se achava o enfermo, naõ passava aquelle accidente de poder ser huma mania accidental, que com pouco trabalho, e prejuizo do enfermo teria facil cura. Assentando nisto, pedio huma palmatoria, e convertendo as sangrias, e purgas em duas duzias de palmatoadas, com promessa de lhe aggravar as penas, na manhãa seguinte o achou bom, e livre de cuidado; e se naõ fora doerem-lhe as mãos, trabalharia logo no seu officio, que era de alfayate. Seguro a V. m. que muitos dos que vissem curar huma oppressaõ de pulso, acompanhada de hum icterismo á cabeça, com o pouco custo de duas duzias de palmatoadas, teriaõ, que rir por muito tempo, e fariaõ pessimo conceito do operante; mas quem considerar que a força do raciocinio, e bom discurso o guiou para este remedio, conhecerá que na Medicina mais, e melhor acerta quem melhor discorre, porque neste caso julgou serem aquellas vozes effeito de huma mania accidental, que muitas vezes com remedios exasperantes, e temores propostos se dissipaõ as nevoas, que occasiona a força, e violencia de huma hypocondria exaltada.
Finalmente, para que V. m. acabe de conhecer o perigoso estado, em que se acha a nossa vida, pela difficuldade, que temos em saber quaes saõ os Medicos bons, para recorrermos a elles em beneficio da conservaçaõ{8} da saude, e os máos para evitarmos cahir nas suas maõs, bastará contar tambem a V. m. o que se passou naõ ha muito tempo com hum homem servente de certa Communidade, o qual adoecendo gravemente, se lhe chamou hum destes Medicos embandeirado na classe dos bons. Principiou logo a sua cura na fórma do estylo, de cujos remedios naõ experimentou o enfermo alivio algum. Aggravou-se a doença de sorte, que o mandou sacramentar por Viatico. Lembrou-lhe por ultimo dar-lhe as sarjas, por naõ faltar ao costume, que he applicar-se este remedio, como a Santa-Unçaõ no extremo da vida, quando de ordinario naõ aproveita aos enfermos; mas o doente, que ouvio quasi proferida a sentença de morte, appellou do Medico para o mesmo Medico, dizendo que tinha que lhe communicar em segredo, antes que nelle se executasse o ultimo supplicio. Ouvio com bom animo o Doutor o segredo, e este consistio em lhe dizer o réo, que elle por occasiaõ do Terremoto fugira para a sua terra, mas a tempo que ja estava prevenida a reconduçaõ dos desertores; que sendo prezo por hum Ajudante, tivera meyos de lhe escapar, e se recolhera ao sitio, em que se achava; e que vindo casualmente a elle o mesmo Ajudante, o conhecêra, e o ameaçára com a proxima monçaõ da India, e que elle para escapar deste desterro se fingira doente, e mostrára aggravar-se-lhe a enfermidade, e assim que estava com grande escrupulo na sua consciencia em se ter sacramentado por Viatico, naõ tendo na verdade cousa alguma. Ficou suspenso o Medico, e dando mais credito ás palavras do enfermo do que ao pulso, a huma informaçaõ delirante, que ás vozes da natureza, entrou a contristar-se de ter concorrido para aquelle escrupulo e escrupulizando muito mais de ter curado hum homem de maligna, sem ter na realidade cousa alguma. Vendo a enfermeira que lhe suspendia as{9} sarjas, perguntou o motivo; ao que o Medico respondeo, que o homem era hum embusteiro, e que naõ tinha cousa alguma, referindo-lhe o successo, e que assim só cuidava em lhe remediar o damno, que lhe tinha feito por conta do seu embuste. A esta confissaõ da sua ignorancia, que cuido seria sincera, acudio a enfermeira, dizendo, que se admirava muito de ver que depois de cahir na primeira cahisse tambem na segunda; porque tanto se tinha enganado, quando principiou a curar, visto dar tanto credito ás palavras do enfermo, como agora, quando o doente o enganára no que lhe dissera, pois elle nunca sahio daquelle sitio, nem fugira, nem tal Ajudante o ameaçára, porque tudo eraõ effeitos de hum grande delirio, em que o tinha posto a maligna, e que logo logo o sarjasse. Conveyo com a instancia, applicou-se o remedio, e se acha inteiramente saõ como hum pero. Agora veja V. m. a quem aquelle homem deveo a sua vida, se foi mais ao conhecimento de huma mulher, que lhe assistia, do que a num Medico, que lhe tomava o pulso? e o juizo, que este faria no principio, no estado, e no progresso da enfermidade, quando julgando por erro os primeiros acertos, lhe pezava de ter acertado, só porque o enfermo lhe dizia, que naõ tinha cousa alguma; e se na verdade assim fosse, achava-se o miseravel homem precisado a curar-se de huma enfermidade, que lhe introduzio a impericia de hum Medico.
Isto he impossivel deixar de succeder todos os dias, porque a respeito dos Medicos, assim como a respeito do mais, suppre de ordinario o favor, e o patrocinio á falta de sufficiencia, pois em havendo qualquer empenho todos curaõ. E se naõ, lembre-se V. m. daquelle nosso amigo, e companheiro, que depois de naõ poder capacitar-se de hum unico ponto da postilla do nosso Mestre o Senhor Manoel Tavares Coutinho, Lente de Vespera{10} de Canones, foi para o Brazil, onde sem mais estudos quiz exercitar o officio de Advogado; e adquirindo muito má fama por esta occupaçaõ, voltou para a Corte, sem mais cabedal que aquelle, com que foi. Passados alguns annos, nos disse no adro da Trindade, que tornava a ir para o mesmo Estado, ainda que com diverso emprego, em que esperava adquirir melhor fortuna, pois teve quem o patrocinou para levar o cargo de Fysico Mór das Minas Geraes; e perguntando-lhe V. m. que tinha mais confiança com elle, como havia de ser isso de curar? elle lhe respondeo, que levava bom provimento de receitas para malignas, para cezoens, para hydropezias, e para todo o genero de enfermidades, que lhe adquiriraõ varios amigos, e que na occurrencia de alguma enfermidade pegava na primeira, e se esta falhasse, applicava a segunda, assim a terceira, até acertar com alguma. Elle foi, e alguns annos depois, que ainda naõ ha quatro, ou cinco, o encontrei em certo sitio curando, supponho como nas minas, com o partido de Medico de certa Communidade Religiosa, e do mesmo lugar, em que se achava. Quando vi semelhante caso, me lembrou logo o que succedeo entre hum Fidalgo, e o seu cozinheiro. Era o Fidalgo Védor da Fasenda, a quem tocava a repartiçaõ da Casa da India. Chegou-se a monçaõ, e o cozinheiro em premio do bom serviço, que tinha feito ao Fidalgo no decurso de muitos annos, lhe pedio a praça de Piloto da náo de viagem. Admirou-se o Fidalgo da petiçaõ, e lhe disse como era possivel que elle soubesse marcar huma náo em huma viagem taõ dilatada, quando nunca tinha sahido de sua cozinha? Ao que constantemente respondeo o cozinheiro: Senhor, isso he historia, nomee-me V. Senhoria para piloto, que o mais fica por conta da fortuna, porque as náos, que vaõ para a India, Deos as leva, e Deos as traz, que o mais de pouco importa.{11} Com que, meu amigo, applico el cuento, com semelhantes Medicos tudo fica por conta de Deos, e se escapamos das suas maõs, he grande milagre, e se algum sabe mais alguma cousa, he pelo estudo, que faz nos vivos, a quem tira a vida, e nenhum pelos mortos, que he onde poderiaõ achar methodo, e doutrinas para curar com menos detrimento dos miseraveis enfermos.