Mas que ha de ser, se alguns, a quem assiste mais huma pouca de curiosidade, quizessem fazer mayor estudo, nem para isso tem tempo, e apenas pódem, como os Siganos, tomar de cór aquella certa giria para fazerem as suas curas, segundo o systema presente, para o que pouco trabalho basta, e sobeja. He taõ precioso o tempo, que para os professores desta arte todo se converte em dinheiro, e assim mais encarregados do que carregados de visitas, passaõ o dia inteiro em correr as ruas, subir, e descer escadas, praticar com os Cirurgioens, e Boticarios, que saõ as adelas do seu conceito; e chegando a casa, ou ao meyo dia, ou á noite, como vem fatigados, naõ olhaõ para livro, nem lhes lembraõ os doentes; porque, como saõ muitos, por huns esquecem os outros; e como as visitas estaõ feitas em numero, está vencida a paga, pois tirando o tempo para estudar, do numero dos enfermos vem a perder o que com elle poderiaõ adquirir, e já hoje naõ está o tempo para ninguem se perder. Bem reconheceo esta falta de tempo certa pessoa grave, quando encontrando-se na rua dos Douradores, que antigamente era muito estreita, com tres Medicos, que estavaõ conversando, gritou aos criados, que parassem, porque naõ era justo pertubar os Senhores Doutores naquelle pouco tempo de estudo, que talvez estivessem conferindo sobre alguma enfermidade. Meu amigo, sem estudo ninguem sabe, e saber sem estudar só o conseguio Salomaõ; mas a sua incomprehensivel{12} sabedoria se lhe communicou dormindo, e foy o unico, a quem Deos fez essa mercê, para que se conhecesse que dormindo, ou sem diligencia só por milagre se póde ser sabio. Quem estuda, muitas vezes sabe pouco, e ordinariamente confessaõ os doutos, que a utilidade, que tiraõ dos seus estudos, he conhecerem o pouco que sabem, e o muito que lhes falta por saber. E que fará quem naõ estuda cousa alguma? O certo he que o estudo ordinario destes professores se termina ao methodo, que hum Medico, reputado por grande, deo a outro, que o consultou, estando elle huma manhãa passeando nos claustros do Convento de S. Francisco da Cidade. Pedio o Medico moderno ao antigo, que lhe désse huma norma, e direcçaõ para estudar, e saber o que fosse necessario para adquirir tambem o conceito de bom Medico, como elle tinha na Corte. Respondeo-lhe o antigo: Senhor Doutor, assente em que para ser tal, qual V. m. deseja, basta que chegue a enterrar nestes claustros tantos miseraveis enfermos, quantos eu tenho mandado para elles, e para outros desta Cidade, e naõ se canse com mais estudo, porque o vulgo ignorante crê como no Evangelho a maxima de que Medicos velhos, e Cirurgioes moços saõ os melhores.
Naõ deixo de reconhecer alguma razaõ, em que se funde esta maxima, mas quando ella se estabeleceo foy naquelle tempo, em que se observava huma experiencia continua unida a hum estudo continuado, e huma especulaçaõ exacta a huma pratica cheya de observações; e como esta se naõ adquire, senaõ com o curso dos annos, he certo que o bom Medico, que for velho, sendo deste genero, será o mais excellente. Mas que importará o numero de annos, se faltar o estudo, e a exacçaõ nas observações da pratica? Serve de tanto, como se vio praticado neste nosso Hospital de Lisboa com hum dos seus{13} primeiros Medicos, o qual eu ainda conheci muito bem. Foi este acompanhado dos seus praticantes, e enfermeiro fazer a visita de manhãa aos enfermos, e discorrendo pelas camas, foy ordenando o que lhe pareceo. Chegou a huma, tomou o pulso ao vulto, que estava nella, e voltou para o enfermeiro, dizendo: A este mais duas sangrias. Replicou-lhe o enfermeiro: Senhor Doutor, este morreo esta noite. Fez taõ pouca impressaõ no senhor Medico esta modesta reprehensaõ, que com o mesmo socego de animo, com que determinou as sangrias a hum cadaver, com o mesmo respondeo: Pois enterrem-no, que he o que se segue. Vamos adiante. Deos me livre de que hum destes me tome o pulso; porque ainda estando eu com boa saude, vendo que as arterias tem pulsaçaõ, logo me manda sarjar, quando elle achou a hum defunto pulso para lhe mandar continuar com as sangrias. De que se manifesta, que os annos sem estudo sim fazem hum homem velho, mas naõ faraõ hum homem sabio. Naõ faltou quem discretamente atribuisse a morte repentina de hum amigo seu a ter visto em sonhos certo Medico máo, que havia no seu tempo, e bastou ver em sonhos aquelle objecto para perder a vida. Se só a imagem na fantezia produzio hum tal effeito, como podemos esperar melhores successos, andando a nossa vida manipulada pela realidade do figurado? Se hum destes só visto em sonhos matou hum homem, como naõ faraõ peyor estrago tantos daquelle mesmo lote, que vivem realmente entre nós, e de que nos vemos cercados, como de inimigos da nossa saude? O certo he, que devemos dar muitas graças a Deos de estar vivos, achando-nos no meyo de tantos coadjutores da morte, que para serem mais expeditos, quasi todos andaõ a cavallo, conhecendo muito bem que sempre a Cavallaria fez mayor estrago, do que a Infantaria, e tambem para imitarem{14} em tudo a figura, que substituem, porque assim a vio S. Joaõ: Et in quarto equo palidi ibat mors. Com o que me parece que naõ podemos achar seguro lugar, onde nos naõ alcance a influencia deste contagio, e ainda nos lugares mais sadios podemos experimentar este damno.
He muito para ver, e muito mais para recear o modo como hum destes sentencea camerariamente a nossa vida, sem haver outro delicto mais, que entregarmo-nos sem reflexao nas suas maõs. Para hum réo, que commetteo talvez hum delicto grave, naõ basta a sentença de hum Juiz inferior, porque nem elle tem authoridade para condemnar, e só remette as culpas ao Tribunal superior. Nomeaõ-se Ministros, faz o Relator o extracto do processo, votaõ cinco, sette, ou mais Ministros, segundo pede a gravidade da causa, ou a igualdade dos votos, e quando se profere a sentença de morte he depois de se vencer pelo mayor numero. E sendo para hum delinquente necessaria tanta circumspecçaõ, para se tirar a vida a hum homem, que está innocente, basta o juizo inferior de hum destes Medicos, que sentenceando de morte com effusaõ de sangue, acha logo Ministro de justiça prompto com o ferro, e com o fogo para summariamente remetter o enfermo para o outro mundo; e muitas vezes nem tanto he necessario, porque basta o Medico só com accrescentar na receita hum ponto com a penna, assinando quatro em lugar de tres, e com isto fica tudo concluido. Eu bem sei que aquelle, que quer parecer mais circumspecto, tambem convoca a sua especie de relaçaõ, a que chamaõ junta, para que no caso de algum máo successo, ter escudo para conservar o seu conceito; porém isto para mim he cousa de rizo, pois o que eu tenho muitas vezes observado he conversar nestas juntas sobre a bondade das suas mulas, do{15} bom serviço de seus criados, e com isto misturaõ algumas leves reflexoens do estado da doença, e no fim remataõ a Conferencia com approvarem tudo o que o senhor Doutor assistente tem determinado, e quando muito, para mostrar que de alguma Cousa servio esta despeza, mandaõ ajuntar dous grãos de sevada da terra, ou na agoa de escorcioneira, ou em alguma tizana, e vaõ saffando com a esmóla, e fazendo rancho, constituem entre si huma especie de sociedade, ajustando chamarem para as juntas huns aos outros, e assim vaõ vivendo muito bem, ainda que os enfermos vaõ passando muito mal. O certo he, meu amigo, que pelo muito que tenho visto a este respeito, assento que se as potencias beligerantes pudessem introduzir nos exercitos oppostos hum pequeno pelotaõ de Medicos deste genero, (salvando sempre o bom conceito, que se deve fazer dos bons) conseguiriaõ as suas batalhas sem despeza de polvora, e bala, poupando os soldos excessivos dos Generaes, e mais despezas, que traz comsigo a guerra, porque elles sem mais armas que hum tinteiro, e hum pouco de papel para fazerem os seus recipes, acompanhados dos seus subalternos, que saõ os Cirirgiões, armados com os seus estojos, e patronas com quatro lancetas, e huns poucos de ferros ferrugentos, e os Boticarios com o seu livro do quid pro quo em bandoleira, fariaõ sem duvida em oito dias mais destroço, do que o exercito poderia experimentar em seis mezes de campanha.
Finalmente, por nao cansar mais a V. m. e eu estar tambem já cansado de escrever, naõ digo o muito, que me occorre a este respeito, e só peço a V. m. que tenha muito cuidado em conservar sem desordens a vida, para lograr hum estado de perfeita saude, e naõ chegar a ter necessidade de cahir no erro commum de chamar Medico,{16} que naõ seja Medico, que lha destrua de todo; e esta diligencia de chamar Medico bastará que V. m. a reserve para a ultima enfermidade, para mostrar que naõ deixa de morrer à moda; ou tambem, quando por muito velho, e achacado se enfastiar de viver, quizer livrar-se desse embaraço por meyos competentes, que fique salva a sua consciencia, porque elles teraõ todo o cuidado de lhe dar a morte embrulhada em alguma emulsaõ, ou dentro de hum frango, lembrando-se que obraõ nisto huma especie de caridade, verificando que a respeito de huma vida cheya de padecimentos naõ he pena a morte, mas sim o fim, e complemento de todas as penas, como escreveo hum discreto: Mors non poena, sed ultima poenarum est. Mas se por acaso, ou fatalidade lhe succeder o contrario, que antes disto lhe seja preciso recorrer a elles pelo costume, encolha os hombros, e console-se com Ouvidio, dizendo: Me quoque fata ligant. Ainda que lhe recommendo muito, e me cuide em fugir, quanto lhe for possivel, destes tres inimigos do corpo, assim como Christaõ deve fugir dos da alma, pois se os da alma, que saõ mundo, diabo, e carne, a arruinaõ por natureza, assim o Medico, Cirurgiaõ, e Boticario tem por officio destruir a saude, e arruinar o corpo. Eu terei grande gosto de saber que V. m. passa livre de necessitar valer-se de semelhantes inimigos, que eu, graças a Deos, por agora escapei por occulta providencia dos ordinarios effeitos das suas obras, e fico muito prompto para me empregar no serviço de V. m. que Deos guarde muitos annos. Lisboa, 20. de Abril de 1756.
De V. m.
Muito amigo, e criado
Jozé Acursio de Tavares.