—Oh!—exclamou Isaura; e nesta simples interjeição, que exhalou como um suspiro, expressava o desafogo de um pégo de angustias, que lhe pesava sobre o coração. Quem de perto a olhasse com attenção veria um leve rubor naquelle rosto, que a dor e os soffrimentos parecião ter condenado a uma eterna e marmorea palidez; era a aurora da esperança, cujo primeiro e timido arrebol assomava nas faces daquella, cuja existencia naquelle momento ia sepultar-se nas sombras de um lugubre occaso.

—Não esperava pela honra de recebel-o hoje nesta sua casa,—continuou Leoncio recobrando gradualmente o seo sangue frio e seo ar arrogante.—Entretanto ha-de permittir que me felicite a mim e ao senhor por tão opportuna visita. A chegada de Vª. Sª. hoje nesta casa parece um acontecimento auspicioso, e até providencial.

—Sim!?... muito folgo com isso ... mas não terá Vª. Sª. a bondade de dizer por que?...

—Com muito gosto. Saiba que aquella sua protegida, aquella escrava, por quem fez tantos extremos em Pernambuco, vae ser hoje mesmo libertada e casada com um homem de bem. Chegou Vª. Sª. mesmo a ponto de presenciar com os seos proprios olhos a realização dos philantropicos desejos, que tinha a respeito da dita escrava, e eu da minha parte muito folgarei, se Vª. Sª. quizer assistir a esse acto, que ainda mais solemne se tornará com a sua presença.

—E quem a liberta?—perguntou Alvaro sorrindo-se sardonicamente.

—Quem mais senão eu, que sou seo legitimo senhor,—respondeo Leoncio com altiva seguridade.

—Pois declaro-lhe, que o não pode fazer, senhor;—disse Alvaro com firmeza.—Essa escrava não lhe pertence mais.

—Não me pertence!...—bradou Leoncio levantando-se de um salto,—o senhor delira ou está escarnecendo?...

—Nem uma, nem outra cousa,—respondeo Alvaro com toda a calma;—repito-lhe; essa escrava não lhe pertence mais.

—E quem se atreve a esbulhar-me do direito que tenho sobre ella?