Ao longo do salão defronte de largas janellas guarnecidas de balaústres, que davão para um vasto pateo interior, via-se postada uma fila de fiandeiras. Erão de vinte a trinta negras, creoulas e mulatas, com suas tenras crias ao collo ou pelo chão a brincarem em derredor dellas. Umas conversavão, outras cantarolavão para encurtarem as longas horas de seo fastidioso trabalho. Vião-se ali caras de todas as idades, cores e feitios, desde a velha africana, trombuda e macilenta, até á roliça e luzidia crioula, desde a negra brunida como azeviche até á mulata quasi branca.
Entre estas ultimas distinguia-se uma rapariguinha a mais faceira e gentil que se pode imaginar nesse genero. Esbelta e flexivel de corpo, tinha o rostinho mimoso, labios um tanto grossos, mas bem modelados, voluptuosos, humidos, e vermelhos como boninas, que acabão de desabrochar em manhã de abril. Os olhos negros não erão muito grandes, mas tinhão uma viveza e travessura encantadora. Os cabellos negros e annelados, podião estar bem na cabeça da mais branca fidalga de além-mar. Ella porém os trazia curtos e mui bem frisados á maneira dos homens. Isto longe de tirar-lhe a graça, dava á sua physionomia zombeteira e espevitada um chiste original e encantador. Se não fossem os brinquinhos de ouro, que lhe tremião nas pequenas e bem molduradas orelhas, e os turgidos e offegantes seios que como dois trêfegos cabritinhos lhe pulavão por baixo de transparente camisa, tomal-a-hieis por um rapazete maroto e petulante. Veremos em breve de que ralé era esta creança, que tinha o bonito nome de Rosa.
No meio do sussurro das rodas, que giravão, das monotonas cantarólas das fiandeiras, do compassado estrepito do tear, que trabalhava incessantemente, dos guinchos e alaridos das creanças, quem prestasse attento ouvido, escutaria a seguinte conversação, travada timidamente e a meia voz em um grupo de fiandeiras, entre as quaes se achava Rosa.
—Minhas camaradas,—dizia a suas vizinhas uma creoula idosa, matreira e sabida em todos os mysterios da casa desde os tempos dos senhores velhos,—agora que sinhô velho morreo, e que sinhá Malvina foi-se embora para a casa de seo pae della, é que nós vamos ver o que é rigor de captiveiro.
—Como assim, tia Joaquina!?...
—Como assim!... vocês verão. Vocês bem sabem, que sinhô velho não era de brinquedo; pois sim; lá diz o ditado = atrás de mim virá quem bom me fará =. Este sinhô moço Leoncio ... hum!... Deos queira que me engane ... quer-me parecer que vae-nos fazer ficar com saudade do tempo de sinhô velho...
—Cruz! ave Maria!... não falla assim, tia Joaquina!... então é melhor matar a gente uma vez...
—Este não quer saber de fiados nem de tecidos, não; e daqui a pouco nós tudo vae p’ra roça puxar enxada de sol a sol, ou p’ra o cafesal apanhar café, e o pirahy do feitor ahi rente atrás de nós. Vocês verão. Elle o que quer é café, e mais café, que é o que dá dinheiro.
—Tambem a dizer a verdade, não sei o que será melhor,—observou outra escrava,—se estar na roça trabalhando de enxada, ou aqui pregada na roda, desde que amanhece até nove, dez horas da noite. Quer-me parecer, que lá ao menos a gente fica mais á vontade.
—Mais á vontade?!... que esperança!—exclamou uma terceira—Antes aqui mil vezes! aqui ao menos a gente sempre está livre do maldito feitor.