—Temos tempo, Malvina,—respondeo-lhe o marido com toda a calma.—É-me preciso em primeiro lugar dar balanço e fazer o inventario da casa de meo pae. Tenho de ir á côrte arrecadar os seos papeis e tomar conhecimento do estado de seos negocios. Na volta e com mais vagar trataremos de Isaura.
Ao ouvir esta resposta o rosto de Malvina cobrio-se de palidez mortal; ella sentio esfriar-lhe o coração apertado entre as mãos geladas do mais pungente dissabor, como se ali se esmoronasse de repente todo o sonhado castello de suas venturas conjugaes. Ella esperava que o marido fulminado por tão doloroso golpe naquelles dias de amarga meditação e abatimento, retrahindo-se no santuario da consciencia, reconhecesse seos erros e desvarios, implorasse o perdão delles, e se propuzesse a entrar nas sendas do dever e da honestidade. As frias desculpas e futeis evasivas do marido vierão submergil-a de chofre no mais amargo e profundo desalento.
—Como?!—exclamou ella com um accento que exprimia a um tempo altiva indignação e o mais entranhado desgosto.—Pois ainda hesitas em cumprir tão sagrado dever?... se tivesses alma, Leoncio, terias considerado Isaura como tua irmã, pois bem sabes que tua mãe a amava e idolatrava como a uma filha querida, e que era seo mais ardente desejo libertal-a por sua morte e deixar-lhe um legado consideravel, que lhe assegurasse o futuro. Sabes tambem, que teo pae havia feito promessa solemne ao pae de Isaura de dar-lhe alforria pela quantia de dez contos de réis, e Miguel já te veio pôr nas mãos essa exorbitante quantia. Sabes tudo isto, e ainda vens com duvidas e demoras!... Oh! isto é muito!... não vejo motivo nenhum para demorar o cumprimento de um dever, de que ha muito tempo já devias ter-te desempenhado.
—Mas para que, semelhante pressa?... não me dirás, Malvina?—replicou Leoncio com a maior brandura e tranquillidade.—De que proveito pode ser agora a liberdade para Isaura? por ventura não está ella aqui bem? é maltratada?... soffre alguma privação?... não continúa a ser considerada antes como uma filha da familia, do que como uma escrava? queres que desde já a soltemos á toa por esse mundo?... assim de certo não cumpriremos o desejo de minha mãe, que tão sollicita se mostrava pela sorte futura de Isaura. Não, minha Malvina; não devemos por ora entregar Isaura a si mesma. É preciso primeiro assegurar-lhe uma posição decente, honesta e digna de sua belleza e educação, procurando-lhe um bom marido, e isso não se arranja assim de um dia para outro.
—Que miseravel desculpa, meo amigo!... Isaura por ora não precisa de marido para protegel-a; tem o pae, que é homem muito de bem, e acaba de dar provas de quanto adora sua filha. Entreguemol-a ao senhor Miguel, que ficará em muito boas mãos, e debaixo de muito boa sombra.
—Pobre do senhor Miguel!—replicou Leoncio com sorriso desdenhoso.—Terá bons desejos, não duvido; mas onde estão os meios, de que dispõe, para fazer a felicidade de Isaura, principalmente agora em que de certo empenhou os cabellos da cabeça para arranjar a alforria da filha, se é que isso não proveio de esmolas, que lhe fizerão, como me parece mais certo.
Por unica resposta Malvina abanou tristemente a cabeça e suspirou. Todavia quiz ainda acreditar na sinceridade das palavras de seo marido, fingio-se satisfeita e retirou-se sem dar mostras de agastamento. Não podia porém prolongar por mais tempo aquella situação para ella tão humilhante, tão cheia de anciedade e desgosto, e no outro dia insistio ainda com mais força sobre o mesmo objecto. Teve em resposta as mesmas evasivas e moratorias. Leoncio affectava mesmo tratar desse negocio com certa indifferença desdenhosa, como quem estava definitivamente resolvido a fazer o que quizesse. Malvina desta vez não pôde conter-se, e rompeo com seo marido. Este, como já friamente havia deliberado, aparou os raios da cólera feminina no escudo de uma imprudencia cynica e galhofeira, o que levou ao ultimo gráo de exacerbação a cólera e o despeito de Malvina.
No outro dia Malvina, sem dar satisfação alguma a quem quer que fosse, deixava precipitadamente a casa de Leoncio, e partia em companhia de seo irmão Henrique caminho do Rio de Janeiro, jurando no auge da indignação nunca mais pôr os pés naquella casa, onde era tão vilmente ultrajada, e varrer para sempre da lembrança a imagem de seo desleal e devasso marido. No assomo do despeito não calculava se teria forças bastantes para levar a effeito aquelles freneticos juramentos, inspirados pela febre do ciume e da indignação; ignorava, que nas almas ternas e bondosas como a sua o odio se desvanece muito mais depressa do que o amor; e o amor, que Malvina consagrava a Leoncio, a despeito de seos desmandos e devassidões, era muito mais forte do que o seo resentimento, por mais justo que este fosse.
Leoncio por seo lado, levando por diante o seo plano de oppôr aos assomos da esposa a mais inerte e cynica indifferença, vio de braços cruzados e sem fazer a minima observação, os preparativos daquella rapida viagem, e recostado ao alpendre, fumando indolentemente o seo charuto, assistio á partida de sua mulher, como se fôra o mais indifferente dos hospedes.
Entretanto essa indifferença de Leoncio nada tinha de natural e sincera; não que elle sentisse pezar algum pela brusca partida de sua mulher; pelo contrario era jubilo, que sentia com a realização daquella caprichosa resolução de Malvina, que assim lhe abandonava o campo inteiramente livre de embaraços, para proseguir em seos nefandos projetos sobre a infeliz Isaura. Com aquelle fingido pouco caso, conseguia disfarçar o prazer e satisfação, em que lhe transbordava o coração; e como era aphorismo adoptado e sempre posto em pratica por elle, posto que em circumstancias menos graves,—que contra as cóleras e caprichos femininos não ha arma mais poderosa do que muito sangue frio e pouco caso, Malvina não pôde descobrir no fundo daquella affectada indifferença o jubilo intenso, em que nadava a alma de seo marido.