O que era feito porém da nobre e infeliz Isaura durante esses longos dias de lucto, de consternação, de anciedades e dissabores?
Desde que ouviu a leitura da carta, em que se noticiava a morte do commendador, Isaura perdeo todas as lisongeiras esperanças, que um momento antes Miguel fizera desabrochar em seo coração. Transida de horror comprehendeo, que um destino implacavel a entregava victima indefesa entre as mãos de seo tenaz e desalmado perseguidor. Sabedora da miseranda sorte de sua mãe, não encontrava em sua imaginação abalada outro remedio a tão cruel situação senão resignar-se e preparar-se para o mais atroz dos martyrios. Um cruel desalento, um pavor mortal apoderou-se de seo espirito, e a infeliz, palida, desfeita, e como que hallucinada, ora vagava á toa pelos campos, ora escondida nas mais espessas moitas do pomar, ou nos mais sombrios recantos das alcovas, passava horas e horas entre sustos e angustias, como a timida lebre, que vê pairando no céo a aza sinistra do gavião de garras sangrentas. Quem poderia amparal-a? Onde poderia encontrar protecção contra as tyrannicas vontades de seo libertino e execravel senhor? Só duas pessoas poderião ter por ella commiseração e interesse; seo pae e Malvina. Seo pae, obscuro e pobre feitor, não tendo ingresso em casa de Leoncio, e só podendo communicar-se com ella a custo e furtivamente, em pouco ou nada podia valer-lhe. Malvina, que sempre a havia tratado com tanta bondade e carinho, ai! A propria Malvina, depois da scena escandalosa em que colhera seo marido, dirigindo a Isaura palavras enternecidas, começou a olhal-a com certa desconfiança e afastamento, terrivel effeito do ciume, que torna injustas e rancorosas as almas ainda as mais candidas e benevolentes. A senhora, com o correr dos dias, tornava-se cada vez menos tratavel e benigna para com a escrava, que antes havia tratado com carinho e intimidade quasi fraternal.
Malvina era boa e confiante, e nunca teria duvidado da innocencia de Isaura, se não fosse Rosa, sua terrivel emula e figadal inimiga. Depois do desaguisado, de que Isaura foi causa innocente, Rosa ficou sendo a mucama ou criada da camara de Malvina, e esta ás vezes desabafava em presença da maligna mulata os ciumes e desgostos, que lhe fervião e transvasavão do coração.
—Sinhá está-se fiando muito naquella sonsa...—dizia-lhe a maliciosa rapariga.—Pois fique certa, que não são de hoje esses namoricos; ha muito tempo, que eu estou vendo essa impostora, que diante da sinhá se faz toda simploria, andar-se derretendo diante de sinhô moço. Ella mesmo é que tem a culpa d’elle andar assim com a cabeça virada.
Estes e outros muitos quejandos enredos, que Rosa sabia habilmente insinuar nos ouvidos de sua senhora, erão bastantes para desvairar o espirito de uma candida e inexperiente moça como Malvina, e forão produzindo o resultado, que desejava a perversa mulatinha.
Acabrunhada com aquelle novo infortunio, Isaura fez algumas tentativas para achegar-se de sua senhora, e saber o motivo por que lhe retirava a affeição e confiança, que sempre lhe mostrára, e a fim de poder manifestar sua innocencia. Mas era recebida com tal frieza e altivez, que a infeliz recuava espavorida para de novo ir mergulhar-se mais fundo ainda no pégo de suas angustias e desalentos.
Todavia emquanto Malvina se conservava em casa, era sempre uma salva-guarda, uma sombra protectora, que amparava Isaura contra as importunações e brutaes tentativas de Leoncio. Por menor que fosse o respeito, que lhe tinha o marido, ella não deixava de ser um poderoso estorvo ao menos contra os actos de violencia, que quizesse pôr em pratica para conseguir seos execrandos fins. Isaura ponderava isso tudo, e é custoso fazer-se idéa do estado de terror e desfallecimento em que ficou aquella pobre alma quando vio partir sua senhora, deixando-a inteiramente ao desamparo, entregue sem defesa aos insanos e barbaros caprichos daquelle, que era seo senhor, amante e algôz ao mesmo tempo.
De feito Leoncio mal vio sumir-se a esposa por trás da ultima collina, não podendo conter mais a expansão de seo satanico jubilo, tratou logo de pôr o tempo em proveito, e pôz-se a percorrer toda a casa em procura de Isaura. Foi emfim deparar com ella no escuro recanto de uma alcova, estendida por terra quasi exanime, banhada em pranto, e arrancando do peito soluços convulsivos.
Poupemos ao leitor a narração da scena vergonhosa, que ahi se deo. Contentemo-nos com dizer, que Leoncio esgotou todos os meios brandos e suasivos ao seo alcance para convencer a rapariga, que era do interesse e dever della render-se a seos desejos. Fez as mais esplendidas promessas, e os mais solemnes protestos; abaixou-se até ás mais humildes supplicas, e arrastou-se vilmente aos pés da escrava, de cuja boca não ouvio senão palavras amargas, e terriveis exprobrações; e vendo emfim que eram infructiferos todos esses meios, retirou-se cheio de cólera, vomitando as mais tremendas ameaças.
Para dar a essas ameaças começo de execução, nesse mesmo dia mandou pôl-a trabalhando entre as fiandeiras, onde a deixámos no capitulo antecedente. Dali teria de ser levada para a roça, da roça para o tronco, do tronco para o pelourinho, e deste certamente para o tumulo, se teimasse em sua resistencia ás ordens de seo senhor.