—Pobre Martinho! quanto pode em teo espirito a ganancia de ouro, que faz-te andar á cata de escravos fugidos em uma sala de baile!—pois é aqui, que poderás encontrar semelhante gente?...

—Olé!... quem sabe?!... tenho cá meos motivos para desconfiar que por aqui mesmo hei-de achal-a, assim como os cinco continhos, que, aqui entre nós, vem agora mesmo ao pintar, pois que o armazem de meo socio bem pouco tem rendido nestes ultimos tempos.

Martinho chamava armazem a pequena taverna, de que era socio. Ditas aquellas palavras foi postar-se junto á porta, que dava para o salão, e ali ficou por largo tempo a olhar, ora para os que dansavão, ora para o annuncio, que tinha desdobrado na mão, como quem averigua e confronta os signaes.

—Que diabo faz ali o Martinho?—exclamou um dos mancebos, que entretidos com as mimicas do Martinho, tomando-as por palhaçada, tinha-se esquecido de jogar.

—Está doudo, não resta a menor duvida.—observou outro.—Procurar escravo fugido em uma sala de baile!... Ora não faltava mais nada! Se andasse á cata de alguma princeza, de certo a iria procurar nos quilombos.

—Mas talvez seja algum pajem, ou alguma mucama, que por ahi anda.

—Não me consta que haja nenhum pajem nem mucama ali dansando, e elle não tira os olhos dos que dansão.

—Deixál-o; este rapaz, além de ser um vil traficante, sempre foi um maniaco de primeira força.

—É ella!—disse o Martinho, deixando a porta, e voltando-se para seos companheiros;—é ella; já não tenho a menor duvida; é ella, e está segura.

—Ella quem, Martinho?...