—Oh! senhor Alvaro!... não vá sacrificar-se por uma pobre escrava, que não merece taes excessos. Abandone-me á minha sina fatal; já não é pouca felicidade para mim ter merecido o amor de um cavalheiro tão nobre e tão amavel, como o senhor; esta lembrança me servirá de alento e consolação em minha desgraça. Não posso porém consentir, que o senhor avilte o seo nome e a sua reputação, amando com tal extremo a uma escrava.
—Por piedade, Isaura, não me martyrizes mais com essa maldita palavra, que constantemente tens nos labios. Escrava tu!... não o és, nunca o foste, e nunca o serás. Pode acaso a tyrania de um homem ou da sociedade inteira transformar em um ente vil, e votar á escravidão aquella que das mãos de Deos sahio um anjo digno do respeito e adoração de todos? Não, Isaura; eu saberei erguer-te ao nobre e honroso lugar a que o céo te destinou, e conto com a protecção de um Deos justo, por que protejo um dos seos anjos.
Alvaro não obstante ficar sabendo depois da noite do baile, que Isaura era uma simples escrava, nem por isso deixou de tratal-a dahi em diante com o mesmo respeito, defferencia e delicadeza, como a uma donzella da mais distincta jerarquia social. Procedia assim de accordo com os elevados principios que professava, e com os nobres e delicados sentimentos do seo coração. O pudor, a innocencia, o talento, a virtude e o infortunio, erão sempre para elle cousas respeitaveis e sagradas, quer se achassem na pessoa de uma princeza, quer na de uma escrava. Sua affeição era tão casta e pura como a pessoa que della era objecto, e nunca nem de leve lhe passára pelo pensamento abusar da precaria e humilde posição de sua amante, para profanar-lhe a candura immaculada. Nunca de sua parte um gesto mais ousado, ou uma palavra menos casta havião feito assomar ao rosto da captiva o rubor do pejo, e nem tão pouco os labios de Alvaro lhe havião roçado o mais leve beijo pelas virginaes e pudicas faces. Apenas depois de instantes e repetidas supplicas de Isaura, havia tomado a liberdade de tratal-a por tu, e isso mesmo quando se achavão a sós.
Sómente agora pela primeira vez, Alvaro, dominado pela mais suave e vehemente emoção, ao proferir as ultimas palavras, enlaçando o braço em torno ao collo de Isaura a cingia brandamente contra o coração.
Estavão ambos enlevados na doçura deste primeiro amplexo de amor, quando o ruido de um carro, que parou á porta do jardim, e logo após um forte e estrondoso—ó de casa!—os fizérão separar-se.
No mesmo momento entrava na sala o boleeiro de Alvaro, e annunciava-lhe que novas pessoas o procuravão.
—Oh, meo Deos!... que será isto hoje!... serão ainda os malditos esbirros?...—refletio Alvaro, e depois dirigindo-se a Isaura:
—É prudente que te retires, minha amiga,—disse-lhe; ninguem sabe o que será e não convem que te vejão.
—Ah! que eu não sirva senão para perturbar-lhe o socego!—murmurou Isaura retirando-se.
Um momento depois Alvaro vio entrar na sala um elegante e bello mancebo, trajado com todo o primor, e affectando as mais polidas e aristocraticas maneiras; mas apezar de sua belleza, tinha elle na physionomia, como Luzbel, um não sei quê de torvo e sinistro, e um olhar sombrio, que incutia pavor e repulsão.