—Este por certo não é um esbirro,—pensou Alvaro, e indicando uma cadeira ao recemchegado:—Queira sentar-se,—disse-lhe,—e tenha a bondade de dizer o que pretende deste seo criado.

—Desculpe-me,—respondeo-lhe o cavalheiro, passeando um olhar escrutador em roda da sala;—não é a Vª. Sª. que eu desejava fallar, mas sim ao morador desta casa ou a sua filha.

Alvaro estremeceo. Estava claro que aquelle mancebo, se bem que nenhuma apparencia tivesse de um esbirro, andava á pista de Isaura. Todavia no intuito de verificar, se era fundada a sua apprehensão, antes de chamar os donos da casa, quiz sondar as intenções do visitante.

—Não obstante,—respondeo elle,—como estou autorisado pelos donos da casa a tratar de todos os seos negocios, pode Vª. Sª. dirigir-se a mim, e dizer o que delles pretende.

—Sim, senhor; não ponho a menor duvida, pois o que pretendo não é nenhum mysterio. Constando-me com certeza, que aqui se acha acoutada uma escrava fugida por nome Isaura, venho apprehendel-a....

—Nesse caso deve entender-se commigo, que sou o depositario dessa escrava.

—Ah!... pelo que vejo, Vª. Sª. é o senhor Alvaro!...

—Um criado de Vª. Sª.

—Bem; muito estimo encontral-o por aqui; pois saiba tambem que eu sou Leoncio, o legitimo senhor dessa escrava.

Leoncio!... o senhor de Isaura!... Alvaro ficou como esmagado sob o peso desta fulminante e tremenda revelação. Mudo e attonito, contemplou por alguns instantes aquelle homem de sombria catadura, que se lhe apresentava aos olhos, implacavel e sinistro como Lucifer, prestes a empolgar a victima, que deseja arrastar aos infernos. Suor frio porejou-lhe pela testa, e a mais pungente angustia apertou-lhe o coração.