—Mas isso é um capricho barbaro, uma perversidade...

—Seja capricho da qualidade que Vª. Sª. quizer; por ventura não posso ter eu os meos caprichos, comtanto que não offenda direitos de ninguem?... por ventura Vª. Sª. não tem tambem o seo capricho de querel-a para si?... mas o seo capricho offende os meos direitos, e eis ahi o que não posso tolerar.

—Mas o meo capricho é nobre e bemfazejo, e o seo é uma tyrannia, para não dizer uma vilania. Vª. Sª. mancha a sua vida com uma nodoa indelevel conservando na escravidão essa mulher; cospe o desrespeito e a injuria sobre o tumulo de sua santa mãe, que creou com tanta delicadeza, educou com tanto esmero essa escrava, para tornal-a digna da liberdade que pretendia dar-lhe, e não para satisfazer aos caprichos de Vª. Sª. Ella por certo lá do céo, onde está, o amaldiçoará, e o mundo inteiro a acompanhará na maldição ao homem, que retem no mais infamante captiveiro uma creatura cheia de virtudes, prendas e belleza...

—Basta senhor!... agora fico tambem sabendo, que uma escrava, só pelo facto de ser bonita e prendada, tem direitos á liberdade. Fique tambem Vª. Sª. sabendo, que se minha mãe não creou essa rapariga para satisfazer aos meos caprichos, muito menos para satisfazer aos de Vª. Sª., a quem nunca conheceo nesta vida. Senhor Alvaro, se deseja ter alguma linda escrava para sua amasia, procure outra, compre-a, que a respeito desta, pode perder toda a esperança.

—Senhor Leoncio, Vª. Sª. de certo esquece-se do lugar onde está, e da pessoa com quem falla, e julga que se acha em sua fazenda fallando aos seos feitores ou a seos escravos. Advirto-lhe, para que mude de linguagem.

—Basta, senhor; deixemo-nos de vãs disputas, e nem eu vim aqui para ser catechisado por Vª. Sª. O que quero é a entrega da escrava e nada mais. Não me obrigue a usar do meo direito levando-a á força.

Alvaro desvairado por tão grosseiras e ferinas provocações, perdeo de todo a prudencia e sangue frio.

Entendeo que para sahir-se bem na terrivel conjunctura em que se achava, só havia um caminho,—matar o seo antagonista ou morrer-lhe ás mãos,—e cedendo a essas suggestões da cólera e do desespero, saltou da cadeira em que estava, agarrou Leoncio pela góla e sacudindo-o com força:

—Algôz!—bradou espumando de raiva,—ahi tens a tua escrava! Mas antes de leval-a, has-de responder pelos insultos que me tens dirigido, ouviste?... ou acaso pensas que eu tambem sou teo escravo?...

—Está louco, homem!—disse Leoncio amedrontado.—As leis do nosso paiz não permittem o duello.