Uma hora depois Alvaro recebia em casa a visita de Martinho. Vinha este mui ancho e lampeiro dar conta de sua commissão, e sofrego por embolsar a somma convencionada.

—Dez contos!... oh!—vinha elle pensando.—É uma fortuna! agora sim, posso eu viver independente!... Adeos, surrados bancos de Academia!. adeos, livros sebosos, que tanto tempo andei folheando á toa!... vou atirar-vos pela janella a fóra; não preciso mais de vós; meo futuro está feito. Em breve serei capitalista, banqueiro, commendador, barão, e verão para quanto presto!...

E á força de multiplicar calculos de usura e agiotagem, já Martinho havia centuplicado aquella somma em sua imaginação.

—Meo caro senhor Alvaro,—veio logo dizendo sem mais preambulos,—está tudo arranjado á medida de nossos desejos. Pode Vª. Sª. viver tranquillo em companhia da gentil fugitiva, que daqui em diante ninguem mais o importunará. De feito o procedimento de Vª. Sª. nesta questão tem sido muito bello e digno de elogios; é proprio de um coração grande e generoso como o de Vª. Sª. Não se dá maior desaforo! no captiveiro uma menina tão mimosa e tão prendada!... Agora aqui está a carta, que escrevo ao lorpa do sultãosinho. Prego-lhe meia duzia de carapetões, que o hão-de desorientar completamente.

Assim fallando Martinho desdobrou a carta, e já começava a lel-a, quando Alvaro impacientado o interrompeo.

—Basta, senhor Martinho,—disse-lhe com máo humor;—o negocio está arranjado; não preciso mais de seos serviços.

—Arranjado!... como?...

—A escrava está em poder de seo senhor.

—De Leoncio!... impossivel!

—Entretanto, é a pura verdade; se quizer saber mais vá á policia, e indague.