Não queria que a conhecessem.
Abalava de casa, vestida como toda a gente, sem nada que pudesse chamar as attenções de quem quer que fosse. Era uma creatura como qualquer outra, e passava, como qualquer outra, no meio da geral indifferença. Os que a conheciam cumprimentavam-na—bons dias, minha senhora!—e os que a não conheciam nem sequer davam por ella. O passo meudinho, muito apressado, como quem marcha para um certo fito, sem se importar com o resto. Entrava aqui, entrava além, fazia o bem que podia, e nem esperava que lhe agradecessem os miseraveis a quem extendia a mão, deixando cahir uma esmola. Como não se sabia quem fosse, chamavam-lhe a Caridade. Envelheceu{24} muito, como toda a gente que teima em viver e morreu um dia, encarquilhada e secca, como a maior parte das velhas. Era a Caridade Evangelica.
Tempos depois, nos mesmos bairros pobres entrou de apparecer uma creatura exotica, dando nas vistas de toda a gente, obrigando a parar quem passava, para a fixar com attenção. O passo largo, muito lento, como quem não tem pressa, e que quer por força dar nas vistas. Entrava aqui, entrava além, como quem passeia um reclame, e gostava que lhe enchessem as mãos de lagrimas agradecidas os miseraveis a quem dava esmola. Como não se sabia quem fosse, n'um dia que ella passava, o passo largo, muito lento, quasi rythmico, dois miseraveis que a viam passar, como quem passeia um reclame:
—É a Dona Caridade?
—Não; é a Exploração da Miseria.{25}
O Principe Real faz immensos progressos nos seus estudos, causando a admiração dos seus professores.
(Dos jornaes).
Era um prodigio, o garoto.
Contava a parteira que elle olhára para traz, quando nasceu piscando um pouco os olhitos ramellosos, como quem pretende ver melhor. Aos tres mezes, já tocava com os deditos côr de rosa nos bicos, pouco salientes, dos peitos da ama, pondo-os em erecção, para mammar melhor. Viam todos que era um pequeno muito talentoso, e um boccadinho brejeirote. Aos noves mezes dizia—bolas!—e foi essa a sua primeira palavra. Comia de tudo, antes de fazer o anno, e larachava com os creados finos, como se fosse uma pessoa grande. Era um prodigio, o demonio do garoto, d'uma precocidade verdadeiramente excepcional. Um familiar da casa perguntava d'uma vez ao medico, a proposito do fedelho—Naturalmente, um genio, doutor?{26} E o doutor, encolhendo os hombros em ar de duvida—Naturalmente um idiota!
Aos cinco annos já sabia tudo—quantas pernas tem um cão, quantas orelhas tem um burro, quantos rabos tem um gato. Era prodigioso, e cada dia que passava como que accrescia de muitos metros aquelle talento incommensuravel. Aos nove annos era um geometra como Euclides, era um historiador como Tacito, era um philosopho como Platão, era um pintor como Raphael, era um poeta como Camões, um romancista como Balzac, um cabo de guerra como Napoleão, um estadista como o sr. Lapin. A tal ponto lhe cresceu o genio, que já não havia espaço para o conter, a dentro das fronteiras nacionaes.