Foi então que se reconheceu a necessidade de o mandar para longe, onde fossem mais largos os horizontes, que os genios, como os gazes quando os comprimem além d'um certo grau, são eminentemente explosivos.

E porque era ainda muito novinho, sem experiencia do mundo, apezar do seu immenso talento, foi a familia com elle, e por lá ficaram todos—para bem de todos nós.{27}


«É melhor tratar d'outro oficio. O jornal ha de morrer á falta de leitores, porque você terá geito para tudo, menos para jornalista.»

(Carta anonyma).

Oh! la pauvre bête!...

Era na verdade, um animal perfeito. De côr acastanhada, a anca alta, largo dos peitos, uma estrella branca na testa, talvez demasiadamente sellado, a perna delgada e nervosa, a cauda farta e comprida, era um burro que fazia parar quem passava, admirando-o, e succedeu a mais de uma beata, ferida de tamanha belleza e correcção, estacar no caminho das suas devoções, e não poder reprimir nas arcas santas do peito esta exclamação blasphema:—Benza-o Deus, como é bonito!...

Procopio então passava horas no enlevo do seu burro, afagando-lhe o focinho e alisando-lhe o pello, não consentindo que sobre elle poisasse uma{28} mosca, ou lhe manchasse a pelle acastanhada um grãosinho de poeira. Era uma especie de burrolatria, um culto religioso que lhe enchia a alma, dando-lhe todas as satisfações espirituaes que resultam para um crente da adoração do seu fetiche. E porque se lhe afigurasse que o burro não era, como os outros burros, uma simples cavalgadura, desatou a alimental-o com o melhor da sua mesa, dando todas as coisas boas e raras que encontrava na sua despensa ou se confeccionavam na sua cozinha. Mas nem o burro lhe pegava nos acepipes, nem ao menos se mostrava agradecido aos seus disvelos e blandicias. Procopio lamentava-se da sua má sorte, chorava a sua desdita, sempre amigo do seu burro, sempre idolatra do seu idolo, sempre adorando o seu fetiche. E como quer que um dia, desabafando n'um peito amigo, se queixasse da ingratidão dos burros, vae o outro, grande philosopho, com larga experiencia da vida, aconselha-o assim:

—A culpa é tua, Procopio, e de mais ninguem. O burro não foi feito para comer á tua mesa, como tu não foste feito para comer á mangedoura. Queres vel-o gordo, alegre, contente, a lamber-te as mãos reconhecido?

E como Procopio estendesse o pescoço, a beber-lhe as palavras.

—Dá-lhe palha, Procopio amigo...{29}