Que frio cortante. Deus do céu!
A miseria é insupportavel no inverno, porque tudo se conjuga para lhe dar uma agudeza de expiação, um requinte de pena biblica, sem laivos de misericordia. Não ha fogo no lar, não ha pão no armario, não ha cobertores no leito, ás vezes nem leito ha.
Que frio cortante. Senhor!
E é então que a Opulencia desce ao antro onde{32} agoniza o miseravel, pondo-lhe na mão ressequida o quanto baste para illudir a fome.
Mas porque haverá no mundo esta tremenda desegualdade, se lá nos altos céus existe uma justiça absoluta, e se existe cá em baixo uma vulgar noção do que seja a equidade?
Que frio cortante, meu Deus!
Dá vontade de morrer, para fugir d'este inferno, e ao mesmo tempo dá vontade de accender uma grande fogueira, a que se aqueçam todos os desgraçados.
Se os poderosos soubessem como se soffre no inverno! Ou não tirariam nada aos pobres, ou lhes restituiriam quanto lhes tiram, n'um desejo sincero e grande de fazer obra meritoria.
Mas elles nem sonham, meu Deus! como é horrivel a miseria no inverno.{33}