Se tivesse echo!...

Era positivamente uma obsessão; mas queria por força uma quinta que tivesse echo, e não se importava pagar esse capricho a peso de dinheiro. Deixára a Patria muito novo, e no Brasil, á força de trabalho e economia, a sorte ajudando um pouco, conseguira fazer fortuna. Todas as noites, ao fechar da loja, consultava o livro de razão, e como visse que os negocios lhe corriam bem, ganhando sempre, tomava o chásinho com torradas, entretinha-se um pouco com os garotos, e ia metter-se na cama tranquillo e satisfeito, como um patriarcha biblico. Sonhava então com a sua aldeia; via-se outra vez no modesto casinhoto em que nascera; encontrava-se de novo com os{41} rapazes da sua geração, e abalavam todos de restolhada, a caçar os ninhos ou a roubar amoras, este sem chapéu, aquelle sem jaqueta, e todos não lhe pesando o pé uma onça, quando o vinheiro se apercebia do grupo, e fazia estalar a funda ou rebentar uma escorva, no momento em que estes saltavam o vallado, para colherem uvas. O que fazia o principal encanto de seus sonhos, era a conversa com o echo, um echo muito perfeito que havia perto da aldeia, no sitio chamado das Antas. Já accordado, ainda lhe parecia que tinha realmente ouvido o echo—quem está lá!—e fechava os olhos, n'um esforço enorme de concentração, parecendo-lhe que talvez assim o ouvisse ainda. E então, principiava a obsedial-o aquella ideia do echo, que já ouvia mesmo acordado—quem está lá!—victima d'uma allucinação do ouvido. Por maneira que passados annos, voltando á sua terra, deitou-se a procurar uma quinta que tivesse echo, não se importando pagar o seu capricho a peso de dinheiro. Soube d'isso o Thomé Cantigas, e logo se poz a instruir o velho João, um creado que já estava na casa quando elle nascera, por maneira a funccionar d'echo quando lá fosse o brasileiro, com quem tinha a quinta ajustada. Ora succedeu então esta coisa curiosa:—quando o Thomé, em companhia do brasileiro, do escrivão e das testemunhas, para verificarem o echo, gritou com toda a força dos seus pulmões—Ó João!—o pobre diabo, escondido por{42} detraz d'uma pedra, ouvindo aquella voz tão sua conhecida, e sentindo acordar em si quarenta annos de obediencia e domesticidade, o pobre diabo respondeu n'um tom humilde—Meu senhor!

Imaginem agora que o rei chegava alli abaixo, perto de S. Bento, espectral como o principe da Dinamarca, quando nas duas camaras, que funccionam agora como dois bilhares, se joga a carambola politica, a maior parte dos parceiros esquecendo-se de dar giz no taco, picando as bolas ao contrario, e todos jogando pela tabella, como se não vissem a encarnada e fosse prohibido atirar-lhe para cima... Sim, imaginem que o rei chegava alli, sem ninguem dar por elle, e no mais acceso da balburdia, no meio encarniçado do jogo, gritava com a sua bella voz de barytono:—Que é lá isso ó seus gajos?

Quantas vozes deixariam de responder como o velho creado João, ouvindo, lá onde estava, por detraz de uma pedra, ensaiado para o echo, a voz do sr. Thomé, seu patrão de tantos annos?{43}


Vaidade das vaidades—tudo é vaidade!

Viera ao mundo com a mania de que tudo andava torto, e lhe competia endireitar tudo. Era assim uma especie de messianismo arte nova, que lhe hypertrophiava a personalidade, tornando-o impertinente. Todas as injustiças o offendiam, todas as asneiras o irritavam, pondo-lhe os nervos em tal estado de vibração, que seria facil romperem-se. Mas ao mesmo tempo essas injustiças que o offendiam, essas asneiras que o irritavam, eram a propria condição da sua existencia, todo o estimulo da sua actividade, a sua unica razão de ser. Que um bello dia entrassem as coisas na bôa ordem, o bem tendo vencido o mal, o amor tendo vencido o odio, a justiça tendo vencido a iniquidade, o direito tendo vencido a força, a verdade tendo vencido a mentira, que um bello dia se realizasse tudo isto, e elle encontrar-se-ia como homem que se desequilibrasse no espaço, sem ponto de{44} apoio, uma creatura que se visse sem ligações com o Universo, isolada como n'uma ilha deserta, um ser de geração espontanea, olhando para traz, e não adivinhando o seu passado, olhando para deante e reconhecendo-se sem destino. Considerava-se o ser por excellencia, a suprema vontade, a suprema intelligencia, a mais alta sabedoria, a mais extremada virtude. Tinha um calcanhar esse gigante, como o heroe da Iliada; mas o Páris, que pretendesse feril-o, escusava de molhar a setta em veneno, bastava que a molhasse em lisonja, que é uma droga pouco toxica e muito corrosiva. Succedeu-lhe um dia adoecer gravemente, e como lhe perguntassem, in articulo mortis, se não receava pela salvação da sua alma, respondeu, tartamudeando muito—Receio que me mettam no céo. Que tortura não será a minha se caio na mansão dos justos.

Por subscripção entre amigos, ergueram-lhe um mausoleu, coisa barata e modesta, e fizeram-lhe gravar na frontaria, em bronze amarello, estes dizeres biblicos:—Vanitas vanitatum, o que traduzido em portuguez quer simplesmente dizer:

Ora bolas para tanta embofia!...{45}