O sr. ministro da fazenda ficou a trabalhar em sua casa.
(Dos jornaes).
A ordem fôra terminante, e não admittia excepções; s. ex.ª não estava para ninguem, absolutamente ninguem.
Andava a estudar um plano geral de reformas, e, como tivesse de ir passar uns dias na provincia, queria deixar os seus papeis arrumados, cada coisa no seu logar, como n'um museu ou n'uma bibliotheca.
Fôra sempre uma creatura methodica, e em grande parte o seu talento, que ainda assim muitos negavam, era feito de trabalho e de methodo. Entrára na politica com uma bagagem de estudante, apenas preparado para no parlamento mandar uma representação para a mesa, e requerer que se desse a materia por discutida, a um signal do leader. Mas trabalhava muito, estudava muito, ambicioso de renome, atormentado pela obscuridade{56} em que vivia, mal supportando que os outros trepassem, subissem, servindo elle proprio de degrau a bastantes creaturas mediocres.
Um bello dia, quasi sem elle proprio saber como nem como não, fizeram-n'o ministro. E logo pensou n'uma larga reforma de serviços, remediando muitas insufficiencias, preenchendo muitas lacunas, pondo cobro a muitos escandalos.
Lá quanto a honestidade, reconheciam-n'a os proprios inimigos.
Colligira todos os elementos de que necessitava para a sua obra reformadora, e resolveu aproveitar aquelle dia para os classificar, em termos de servir-se d'elles com a maior facilidade e proveito.
Estava inteiramente absorvido n'essa tarefa, quando lhe apareceu junto da mesa um continuo, muito vermelho, muito atrapalhado, a revirar o bonet na mão, a querer falar, e não se atrevendo a abrir a bocca.
—Que ha?