Quem sabe!
Se n'esses mundos longinquos, para onde dizem que vão as almas, se conserva lembrança da vida que aqui tivemos, bem sabem vocês, queridos e inolvidaveis mortos! que é para nós de lagrimas este dia, visto que esta pagina é hoje um canto do cemiterio!{52}
A morte perdendo a foice
Creu sua força desfeita.
Disse-lhe um medico insigne:
Aqui tens esta receita.
Chamava-se Corvo, e era alfaiate.
Pouco trabalhava pelo officio, quasi sempre pelo campo, a caçar lebres ou perdizes, lá de longe em longe mettendo-se na jolda, e só então aventurando-se por aquelles mattos espessos, onde deixava metade da farpela, em boccados. A sua grande paixão, a sua mania de caçador era pelos pombos, á negaça. Abalava de casa muito cedo, o pombinho mettido na aljabra, o farnel mettido nos bolsos, a aguilhada ao hombro, a espingarda a tiracolo, e uma garrafinha de aguardente sem confecção, que o frio era de rachar, por aquelles dias molhados de novembro. Chegava ao sitio, circumdava os montados, n'uma extensão enorme, com a sua vista de lynce, e toca a fazer a choça, não fossem os pombos dar-se pressa de vir alli,{53} apanhando-o desprevenido. Ás vezes não matava nada; outras vezes matava quantos se faziam; mas sempre se divertia immenso, a puxar a negaça e a aperrar a caçadeira, não se esquecendo nunca de beijar a garrafinha da aguardente, que valia pelo melhor dos lumes, no desabrigo da choça, por aquelles dias gelados de novembro.
Ora succedeu que um dia, ao voltar dos pombos, chegando a casa, subitamente, o Corvo sentiu-se mal, horrivelmente mal, gritando que lhe accudissem. N'esse mesmo dia, áquella mesma hora, por assim dizer, n'aquelle mesmo instante, tinha chegado o medico novo, que ainda ninguem tinha visto. Correram a chamal-o, n'uma afflicção, que o Corvo sentia-se morrer e gritava como um perdido. Vae o doutor, muito solicito, observa o doente, faz uma receita, enche uma seringa e crava-a n'uma nadega do alfaiate, que não tugiu nem mugiu.
Estava morto o pobre Corvo, velho caçador de pombos, que durante largos annos, todas as manhãs, em dias gelados de novembro, abalava de casa para as montanhas, a aguilhada ao hombro e o farnel nos bolsos, sem nunca se esquecer da garrafinha d'aguardente, que valia por um bom fogo no desabrigo da choça, encostado a um sobreiro.
O caso fez barulho na aldeia, e como alguem lamentasse a perda de tão eximio caçador:
—Lá quanto a isso, perorou um mariola d'um{54} barbeiro, não vejo razão para se lamentar a gente. O nosso doutor parece ser homem de boa pontaria. Mal disparou a seringa, logo o Corvo enrolou as azas, como se fosse um pombo que se fizesse, e apanhasse a carga em cheio.{55}