Casaram, está bem de ver, e foram padrinhos aquelles parentes da Bairrada, que elle tinha ido visitar á Figueira, onde ella estava a banhos. Ninguem a ensinára a trabalhar, e como elle só tinha o seu ordenado de despachante, uns vinte mil réis por mez, era impossivel metter creada, de modo que andava tudo desarrumado, a comida era mal feita, nunca estava prompta a horas, e quando uma rabanada de vento entrava pela janella, era como redemoinho correndo ao longo d'uma estrada poeirenta. Mas todas as noites, quando recolhia, farto de cuspir no café, ia encontral-a, como n'outro tempo, encostada a uma pequenina mesa quadrada, um livro de versos na mão esquerda, marcando a pagina com o dedo. E ao vel-a assim descuidada n'um grande ar de alheiamento e de sonho, toda a sua gracil pessoinha como que envolvida n'uma atmosphera de languidez quasi morbida, estacava á entrada da sala, como n'outro tempo, murmurando por entre dentes:
—Que desmazelo, meu Deus!{78}
Dio del oro, del mundo signor.
Noite de festa.
Tinham-se vendido todos os logares, e ninguem dispensava o seu bilhete como se fosse um decimo de loteria, com probabilidades conhecidas de sair n'elle a sorte grande.
—Compra-se uma cadeira!
—Ha quem venda uma geral ou camarote?
Eram vozes clamando no deserto... d'uma multidão compacta, junto ao guichet, todos sabendo que não entrariam, mas ninguem tendo a coragem de se ir embora.—Quem sabe? Uma familia que se enlutou á ultima hora, e manda vender o seu camarote; um honrado negociante que precisou de abalar para o Alemtejo, e manda vender o seu fauteuil.
Era noite de festa.