A mãe dissera-lhe que fosse pedir esmola, havia muitas horas sem comer, e elle abalára por essas ruas, descalço e rôto, extendendo a mão a toda a gente. Entrava nos cafés, e ninguem lhe dava nada; entrava pelas lojas, descalço e rôto, e os caixeiros enxotavam-n'o como se fosse um cão. Dá-me cincoreisinhos, meu senhor?
Ninguem lhe dava nada, e todos o maltratavam, chegando um policia a deitar-lhe a unha para o levar para a Correcção. Infatigavel, entrando agora n'um café, onde os freguezes nem ouviam o seu estribilho—dá-me cincoreisinhos, meu senhor?—entrando além n'uma loja, d'onde os caixeiros o enxotavam como um cão sem dono, já tinha percorrido a cidade inteira, extendendo a mão a{92} toda a gente, e toda a gente olhando para elle com desprezo ou com enfado, e ninguem se compadecendo da sua miseria. E, comtudo, era nada, que elle pedia a toda a gente que passava, extendendo a mão suplicante.—Dá-me cincoreisinhos, meu senhor?
Cançado, cheio de fome, ahi volta elle a casa, onde a mãe o aguardava, n'uma afflicção, chumbada ao leito, havia muitas horas sem comer. Uma senhora muito bem vestida, com brilhantes, carruagem brazonada, quasi encalhando n'elle á porta d'uma Egreja, estendeu-lhe a mão enluvada, e deixou cahir na sua mãosita suja, sem olhar para elle, os cincoreisinhos que elle andava a pedir correndo a cidade inteira, extendendo a mão a toda a gente que passava, entrando nos cafés, onde os freguezes eram surdos ao seu pedido, e entrando nas lojas, descalço e rôto, e d'onde os caixeiros o enxotavam, como um cão vadio.
Talvez não fosse de proposito, mas os cincoreisinhos telintaram nas pedras da calçada, emquanto a senhora que lh'os dera, muito bem vestida, genuflectia á porta do templo, e cortava o rosto fresco e moreno com o signal da cruz.
Foi então que o garoto deu com os olhos n'um cesto de verga, á porta d'uma padaria, cheio de pão alvo e fresco.
Alli perto estava a mãe, chumbada ao leito, sofrendo horrivelmente, noites e noites sem dormir, havia muitas horas sem comer. Quasi nem teve{93} tempo de acommodar o pão debaixo do braço, escondendo-o com uns frangalhos da jaqueta. O padeiro grita, o garoto foge, a policia apanha-o, e a multidão horroriza-se deante d'aquelle ladrão de onze annos, que tinha a mãe alli perto, n'uma pocilga, chumbada ao leito, soffrendo horrivelmente, noites e noites sem dormir, havia muitas horas sem comer.
Na esquadra, mettido no segredo, como um facinora, o garoto dá o nome e a morada; mas o terror nem o deixa desafogar em lagrimas—vejam o cynismo do malandro!—e a vergonha faz-lhe esconder a cara—admirem a astucia do patife!
O policia, que foi prevenir a familia, ao outro dia, encontrou extendido no leito, ainda quente, o cadaver d'uma mulher nova, muito sêcca, muito mirrada, o ar de quem passou largo tempo chumbada ao leito, ainda quente, soffrendo horrivelmente, muitas horas sem comer, muitas noites sem dormir.
Já não lhe puderam dizer que era um ladrão o seu filho, aquelle garoto descalço e esfrangalhado, que percorrera a cidade inteira, incommodando toda a gente—dá-me cincoreisinhos, meu senhor?{94}